Mao Tse Tung.
O materialismo pré-marxista examinava o problema do conhecimento à margem da natureza social do homem e do seu desenvolvimento histórico, e por isso era incapaz de compreender a dependência do conhecimento a respeito da prática social, quer dizer, a dependência do conhecimento a respeito da produçom e a luita de classes.
Antes de mais, os marxistas julgam que a actividade do homem na produçom é a sua actividade prática mais fundamental, a que determina todas as demais actividades. O conhecimento do homem depende principalmente da sua actividade na produçom material; no decurso desta, o homem vai compreendendo gradativamente os fenómenos, as propriedades e as leis da natureza, bem como as relaçons entre ele próprio e a natureza, e, também através da sua actividade na produçom, vai conhecendo paulatinamente e em diverso grau determinados relacionamentos vigorantes entre os homens. Nom é possível adquirir nengum destes conhecimentos fora da actividade na produçom. Numha sociedade sem classes, cada indivíduo, como membro da sociedade, unindo os seus esforços aos dos outros membros e travando com eles determinadas relaçons de produçom, dedica-se à produçom para satisfazer as necessidades materiais do homem. Em todas as sociedades de classes, os membros das diferentes classes sociais, entrando também, de umha ou outra maneira, em determinadas relaçons de produçom, dedicam-se à produçom, destinada a satisfazer as necessidades materiais do homem. Isto constitui a fonte fundamental desde a qual se desenvolve o conhecimento humano.
A prática social do homem nom se reduz à sua actividade na produçom, porquanto tem muitas outras formas: a luita de classes, a vida política, as actividades científicas e artísticas; em resumo, o homem, como ser social, participa em todos os domínios da vida prática da sociedade. Portanto, vai conhecendo em diverso grau as diferentes relaçons entre os homens nom apenas através da vida material, como também através da vida política e a vida cultural (ambas as duas estreitamente ligadas à vida material). Destas formas da prática social, a luita de classes nas suas diversas manifestaçons exerce, em particular, umha influência profunda sobre o desenvolvimento do conhecimento humano. Na sociedade de classes, cada pessoa existe como membro de umha dada classe, e todas as ideias, sem excepçom, levam o seu carimbo de classe.
Os marxistas defendem que a produçom na sociedade humana se desenvolve passo a passo, do inferior ao superior, e que, em conseqüência, o conhecimento que o homem tem quer da natureza quer da sociedade, se desenvolve também passo a passo, do inferior ao superior, quer dizer, do superficial ao profundo, do unilateral ao multilateral. Durante um período muito longo na história, o homem viu-se circunscrito a umha compreensom unilateral da história da sociedade, já que, de umha parte, as classes exploradoras a deforrmavam constantemente devido aos seus preconceitos e, de outra parte, a pequena escala da produçom limitava a visom do homem. Só quando surgiu o proletariado moderno junto de gigantescas forças produtivas, (a grande indústria), pudo o homem atingir umha compreensom global e histórica do desenvolvimento da sociedade e transformar este conhecimento numha ciência, a ciência do marxismo.
Os marxistas defendem que a prática social do homem é o único critério da verdade do seu conhecimento do mundo exterior. Com efeito, o conhecimento do homem fica confirmado apenas quando consegue os resultados esperados no processo da prática social (produçom material, luita de classes ou experimentaçom científica). Se o homem quiger atingir sucesso no seu trabalho, quer dizer, alcançar os resultado esperados, tem de fazer concordar as suas ideias com as leis do mundo exterior objectivo; se nom consegue isto, fracassa na prática. Depois de sofrer um fracasso, tira liçons dele, modifica as suas ideias fazendo-as concordar com as leis do mundo exterior e, destarte, pode transformar o fracasso em sucesso: eis o que se quer dizer com "o fracasso é a mai do sucesso" e "cada fracasso fai-nos mais lestos". A teoria materialista dialéctica do conhecimento coloca a prática no primeiro plano; considera que o conhecimento do homem nom pode separar-se nem no mais mínimo da prática, e recusa todas as teorias erróneas que negam a importáncia ou afastam dela o conhecimento. Como dixera Lenine: "A prática é superior ao conhecimento (teórico), porque possui nom apenas a dignidade da universalidade, mas também a da realidade imediata [1]. "A filosofia marxista – o materialismo dialéctico – tem duas características sobressalentes. Umha é o seu carácter de classe: afirma explicitamente que o materialismo dialéctico serve ao proletariado. Umha outra é o seu carácter prático: vinca a dependência da teoria a respeito da prática, sublinha que a prática é a base da teoria e que esta, por sua vez, serve à prática. O facto de um conhecimento ou teoria ser verdade nom se determina mediante umha apreciaçom subjectiva, senom mediante os resultado objectivo da prática social. O critério da verdade nom pode ser outro que a prática social. O ponto de vista da prática é o ponto de vista primeiro e fundamental da teoria materialista dialéctica do conhecimento.
Mas, como é que o conhecimento humano surge da prática e serve por sua vez à prática? Para compreendermo-lo basta com olhar o processo de desenvolvimento do conhecimento [2].
No processo da prática, o homem nom vê ao começo mais do que as aparências, os aspectos isolados e as ligaçons externas das cousas. Por exemplo, algumhas pessoas de fora venhem a Yenan em giras de investigaçom. Nos primeiros um ou dous dias, vem a sua topografia, ruas e casas, tomam contacto com muitas pessoas, assistem a recepçons, reunions e comícios, ouvem todo o tipo de conversas e lem diferentes documentos: isso tudo som as aparências das cousas, os seus aspectos isolados e as suas ligaçons externas. Esta etapa do conhecimento denomina-se etapa sensorial, e é a etapa das sensaçons e as impressons. Quer dizer, as cousas de Yenan, isoladas, agindo sobre os órgaos dos sentidos dos membros do grupo de investigaçom, provocam sensaçons neles e fazem surgir no seu cérebro grande quantidade de impressons junto de umha noçom aproximativa das ligaçons externas entre as ditas impressons: esta é a primeira etapa do conhecimento. Nesta etapa, o homem nom pode ainda formar conceitos, pois que correspondem a um nível mais profundo, nem tirar quaisquer conclusons lógicas.
À medida que continua a prática social, as cousas que no decurso da prática suscitam no homem sensaçons e impressons, apresentam-se umha e outra vez; entom produz-se no seu cérebro umha mudança repentina (um salto) no processo do conhecimento e surgem os conceitos. Os conceitos já nom constituem reflexos das aparências das cousas, dos seus aspectos isolados e das suas ligaçons externas, ao captarem as cousas na sua essência, no seu conjunto e nas suas ligaçons internas. Entre o conceito e a sensaçom existe umha diferença nom apenas quantitativa, mas também qualitativa. Continuando avante, mediante o juízo e o razoamento, podem-se tirar conclusons lógicas. A expressom da Crónica dos três reinos [3] : "enrugou o sobrolho e veu-lhe à mente um estratagema", ou a da linguagem corrente: "Deixe-me reflectir", significam que o homem , empregando conceitos no cérebro, procede ao juízo e ao razoamento. Esta é a Segunda etapa do conhecimento. Os membros do grupo de investigaçom, depois de terem reunido diversos dados e, o que é mais, depois de terem reflectido, podem chegar ao juízo de que "a política da frente única nacional antijaponês, aplicada polo Partido Comunista, é conseqüente, sincera e genuína" . Tendo formulado este juízo, eles podem, se forem genuínos partidários da unidade para salvar a naçom, dar outro passo à frente e tirar a seguinte conclusom: "A frente única nacional antijaponesa pode ter sucesso". Esta etapa, a dos conceitos, os juízos e os razoamentos, é ainda mais importante no processo completo do conhecimento de umha cousa polo homem; é a etapa do conhecimento racional. A verdadeira tarefa do conhecimento consiste em chegar, passando polas sensaçons, ao pensamento, em chegar passo a passo à compreensom das contradiçons internas das cousas objectivas, das suas leis e das ligaçons internas entre um processo e outro, quer dizer, em chegar ao conhecimento lógico. Repetimos: o conhecimento lógico difere do conhecimento sensorial em que este atinge os aspectos isolados, as aparências e as ligaçons externas das cousas, enquanto aquele, dando um grande passo à frente, alcança o conjunto, a essência e as ligaçons internas das cousas, pom a nu as contradiçons internas do mundo circundante e pode, portanto, chegar a dominar o desenvolvimento do mundo circundante no seu conjunto, nas ligaçons internas de todos os seus aspectos.
Ninguém antes do marxismo elaborou umha teoria como esta, a materialista dialéctica, sobre o processo de desenvolvimento do conhecimento, o que se baseia na prática e vai do superficial ao profundo. É o materialismo marxista o primeiro em resolver correctamente este problema, patenteando de maneira materialista e dialéctica o movimento de aprofundizaçom do conhecimento, movimento polo qual o homem, como seu social, passa do conhecimento sensorial ao conhecimento lógico na sua complexa e constantemente repetida prática da produçom e da luita de classes. Lenine dixo: "A abstracçom da matéria, de umha lei da natureza, a abstracçom do valor, etc., numha palavra, todas as abstracçons científicas (correctas, sérias, nom absurdas) reflectem a natureza em forma mais profunda, veraz e completa [4] . "O marxismo-leninismo sustém que cada umha das duas etapas do processo cognoscitivo tem as suas próprias características: na etapa inferior, o conhecimento manifesta-se como conhecimento sensorial e, na etapa superior, como conhecimento lógico, mas ambas as duas som etapas de um processo cognoscitivo único. O sensorial e o racional som qualitativamente diferentes; no entanto, um e outro nom estám desligados, e sim unidos sobre a base da prática. A nossa prática é testemunho de que podemos compreender imediatamente o que percebemos, e que podemos perceber com maior fundura só aquilo que já compreendemos. A sensaçom apenas resolve o problema das aparências; unicamente a teoria pode resolver o problema da essência. A soluçom destes problemas nom pode afastatar-se nem no mais mínimo da prática. Quem quiger conhecer umha cousa, nom poderá fazê-lo sem entrar em contacto com ela, quer dizer, sem viver (praticar) no mesmo meio dessa cousa. Na sociedade feudal era impossível conhecer antecipadamente as leis da sociedade capitalista, pois nom tinha aparecido ainda o capitalismo e faltava a prática correspondente. O marxismo só podia ser produto da sociedade capitalista. Marx, na época do capitalismo liberal, nom podia conhecer concretamente, de antemao, certas leis peculiares da época do imperialismo, já que nom tinha aparecido ainda o imperialismo, fase final do capitalismo, e faltava a prática correspondente; apenas Lenine e Staline pudérom assumir esta tarefa. Para além do seu génio, a razom principal pola qual Marx, Engels, Lenine e Staline pudérom criar as suas teorias foi a sua participaçom pessoal na prática da luita de classes e da experimentaçom científica do seu tempo; sem este requisito, nengum génio poderia tê-lo feito com sucesso. A expressom: "Sem sair da sua morada, o letrado sabe tudo quanto acontece no mundo" nom era mais do que umha frase oca nos tempos antigos. Quando a técnica estava pouco desenvolvida; e na nossa época de técnica desenvolvida, embora tal cousa seja realizável, os únicos que tenhem autênticos acontecimentos de primeira mao som as pessoas que no mundo se dedicam à prática. E só quando, mercê da escrita e da técnica, chegam ao "letrado" os conhecimentos que estas pessoas adquirírom na sua prática, pode este, indirectamente, "saber tudo quanto acontece no mundo". Para conhecer directamente tal ou tal cousa ou cousas, cumpre participar pessoalmente na luita prática por transformar a realidade, por transformar a dita cousa ou cousas, já que este é o único meio de entrar em contacto com as suas aparências; aliás, é este o único meio de tornar evidente a essência da dita cousa ou cousas e compreendê-las. Tal é o processo cognoscitivo que na realidade seguem todos os homens, embora algumha gente, deformando deliberadamente os factos, afirme o contrário. A gente mais ridícula do mundo som os "sabidos" que, recolhendo de ouvido conhecimentos fragmentários e superficiais, se tenhem pola "máxima autoridade no mundo", o que dá testemunho apenas da sua fatuidade. O conhecimento é problema da ciência e esta nom admite nem a menor desonra nem a menor presunçom; o que exige é o contrário, decerto: honestidade e modéstia. Se quigeres conhecer, tes que participar na prática transformadora da realidade. Se quigeres conhecer o sabor de umha pera, tes que transformá-la tu próprio comendo-a. Se quigeres conhecer a estrutura e as propriedades do átomo, tes que fazer experimentos físicos e químicos, mudar o estado do átomo. Se quigeres conhecer a teoria e os métodos da revoluçom, tes de participar na revoluçom. Todo conhecimento autêntico nasce da experiência directa. Porém, o homem nom pode ter experiência directa de todas as cousas e, de facto, a maior parte dos nossos conhecimentos provém da experiência indirecta, por exemplo, todos os conhecimentos dos séculos passados e de outros países. Estes conhecimentos fôrom ou som, para os nossos antecessores e os estrangeiros, produto da experiência directa, e merecem confiança se no decurso dessa experiência directa se cumpriu a condiçom de "abstracçom científica" de que falava Lenine e se reflectem de um modo científico a realidade objectiva; se assim nom for, nom a merecem. Por isso, os conhecimentos de umha pessoa som constituídos por só dous sectores: um provém da experiência directa e o outro, da experiência indirecta. Além do mais, o que para mim é experiência indirecta, constitui experiência directa para outros. Portanto, considerados no seu conjunto, os conhecimentos, sejam do tipo que forem, nom podem separar-se da experiência directa. Todo o conhecimento se origina nas sensaçons que o homem obtém do mundo exterior objectivo através dos órgaos dos sentidos Nom é materialista quem negar a sensaçom, negar a experiência directa, ou negar a participaçom pessoal na prática transformadora da realidade. É por isso que os "sabidos" som ridículos. Um antigo ditado chinês di: "Se um nom entra na guarida do tigre, como poderá apossar dos seus cachorros?" Este ditado é certo tanto para a prática do homem quanto para a teoria do conhecimento. Nom pode haver conhecimento à margem da prática.
Para pôrmos em claro o movimento materialista dialéctico do conhecimento, movimento de aprofundizaçom gradativa do conhecimento, surgido sobre a base da prática transformadora da realidade, daremos a seguir outros exemplos concretos.
No perído inicial da sua prática, período de destruiçom das máquinas e de luita espontánea, o proletariado achava-se, no que ao seu conhecimento da sociedade capitalista di respeito, só na etapa do conhecimento sensorial; conhecia apenas os aspectos isolados e as ligaçons externas dos diversos fenómenos do capitalismo. Nessa época, o proletariado era ainda umha "classe em si". Porém, o proletariado tornou-se numha "classe para si" quando, entrando no segundo período da sua prática, período de luita económica e política consciente e organizada, chegou a compreender a essência da sociedade capitalista, as relaçons de exploraçom entre as classes sociais e as suas próprias tarefas históricas, graças à sua prática, à sua variada experiência de longos anos de luita e à sua educaçom na teoria marxista, resumo científico feito por Marx e Engels da dita experiência.
O mesmo se passou com o conhecimento do povo chinês a respeito do imperialismo. A primeira etapa foi a do conhecimento sensorial, superficial, tal como se manifestou nas indiscriminadas luitas contra os estrangeiros, acontecidas durante os movimentos do Reino Celestial Taiping, do Yijetuan e outros. Só na Segunda etapa, a do conhecimento racional, o povo chinês discerniu as diferentes contradiçons internas e externas do imperialismo e compreendeu a verdade essencial de que o imperialismo, em aliança com a burguesia compradora e a classe feudal, oprimia e explorava as amplas massas populares da China; tal conhecimento nom começou até a época do Movimento de 4 de Maio de 1919.
Vamos agora ver a guerra. Se os dirigentes militares carecerem de experiência militar, nom poderám compreender na etapa inicial as leis profundas que regem a direcçom de umha guerra específica (por exemplo, a nossa Guerra Revolucionária Agrária dos últimos dez anos). Na etapa inicial, só viverám a experiência de numerosos combates e, o que é mais, sofrerám muitas derrotas. No entanto, esta experiência (a experiência dos combates ganhos e, nomeadamente, a dos perdidos) permitirám-lhes compreender o que por dentro articula toda a guerra, quer dizer, as leis dessa guerra específica, compreender a sua estratégia e as suas tácticas e, destarte, dirigi-la com segurança. Se nesse momento se confia o mando da guerra a umha pessoa inexperta, ela também terá que sofrer umha série de derrotas (quer dizer, adquirir experiência) antes de poder compreender as verdadeiras leis da guerra.
Com freqüência, temos ouvido dizer de algum camarada sem coragem para aceitar umha tarefa: "Nom estou certo de podê-la cumprir" Por quê nom está certo de si próprio? Porque nom compreende o conteúdo e as circunstáncias desse trabalho segundo as leis que o regem, porque nom tivo ou tivo muito pouco contacto com semelhante trabalho, de jeito que nom se pode falar de que conheça tais leis. Mas, depois de umha análise detalhada da natureza e as circunstáncias desse trabalho, sentirá-se relativamente seguro de si próprio e aceitará-o contente. Se se dedicar a ele por algum tempo e adquirir experiência, e se e se estiver disposto a examinar a situaçom com prudência, em lugar de abeirar-se de maneira subjectiva, unilateral e superficial, será capaz de chegar por si próprio a conclusons sobre como deve fazer o trabalho e fará-o com muito maior coragem. Apenas quem se abeirar aos problemas de maneira subjectiva, unilateral e superficial, ditará ordens vaidosamente ao que chega a um novo lugar, sem levar em conta as circunstáncias, sem examinar as cousas na sua totalidade (a sua história e a sua situaçom actual em conjunto) nem penetrar na sua essência (a sua natureza e as ligaçons internas entre umha cousa e outras). Semelhantes pessoas esbarram e caem inevitavelmente.
Assim e que se vê que o primeiro passo no processo do conhecimento é o contacto com as cousas do mundo exterior; isto corresponde à etapa das sensaçons. O segundo é sintetizar os dados proporcionados polas sensaçons, ordenando-os e elaborando-os; isto corresponde à etapa dos conceitos, os juízos e os razoamentos. Só quando os dados achegados polas sensaçons som muito ricos (nom fragmentários e incompletos) e acordes com a realidade (nom ilusórios), podem servir de base para formar conceitos correctos e umha lógica correcta.
Cumpre sublinhar dous pontos importantes. O primeiro, que se assinalou acima mas que convém reiterar, é a dependência do conhecimento racional a respeito do conhecimento sensorial. É idealista quem considerar possível que o conhecimento racional nom provenha do conhecimento sensorial. Na história da filosofia, existe a escola "racionalista", que só reconhece a realidade da razom e nega a realidade da experiência sensorial; o seu erro consiste em alterar os factos. O racional merece crédito precisamente porque dimana do sensorial; de outro modo, o racional seria regacho sem fonte, árvore sem raízes, qualquer cousa subjectiva, autogerada e indigna de confiança. Na ordem que segue o processo do conhecimento, a experiência sensorial vem primeiro; se vincamos a importáncia da prática social no processo do conhecimento é porque só ela pode dar origem ao conhecimento humano e permitir ao homem começar a adquirir experiência sensorial do mundo exterior objectivo. Para umha pessoa que fecha os olhos e tapa os ouvidos e se isola totalmente do mundo exterior objectivo, nom há conhecimento possível. O conhecimento principia com a experiência: este é o materialismo da teoria do conhecimento.
O segundo ponto é que o conhecimento necessita aprofundar-se, precisa de se desenvolver da etapa sensorial para a racional: esta é a dialéctica da teoria do conhecimento [5]. Julgar que o conhecimento poda ficar na etapa inferior, sensorial, e que apenas é digno de crédito o conhecimento sensorial e nom o racional, significa cair no "empirismo", erro já conhecido na história. O erro desta teoria consiste em ignorar que os dados proporcionados polas sensaçons, ainda que constituem reflexos de determinadas realidades do mundo exterior objectivo (aqui nom me refiro ao empirismo idealista, que reduz a experiência à chamada introspecçom), nom passam de ser unilaterais e superficiais, reflexos incompletos das cousas, que nom traduzem a sua essência. Para reflectir plenamente umha cousa na sua totalidade, para reflectir as suas leis internas, há que proceder a umha operaçom mental, submeter os ricos dados subministrados polas sensaçons a umha elaboraçom que consiste em descartar a casca para ficar com o grao, descartar o falso para conservar o verdadeiro, passar de um aspecto a outro e do externo ao interno, formando assim um sistema de conceitos e teorias; é preciso dar um salto do conhecimento sensorial ao racional. Os conhecimentos assim elaborados nom som menos substanciosos nem menos dignos de confiança. Polo contrário, todo aquilo que no processo do conhecimento foi cientificamente elaborado sobre a base da prática, reflecte a realidade objectiva, como di Lenine, em forma mais profunda, veraz e completa. Os "práticos" vulgares nom procedem assim; respeitam a experiência mas desprezam a teoria, e em conseqüência nom podem ter umha visom que abranja um processo objectivo na sua totalidade, carecem de umha orientaçom clara e de umha perspectiva de longo alcance, e contentam-se com os seus êxitos ocasionais e com fragmentos da verdade. Se essas pessoas dirigem umha revoluçom, conduzirám-na a um beco sem saída.
O conhecimento racional depende do conhecimento sensorial, e este necessita desenvolver-se até se tornar em conhecimento racional: tal é a teoria materialista dialéctica do conhecimento. Na filosofia, nem o "racionalismo" nem o "empirismo" entendem o carácter histórico ou dialéctico, do conhecimento, e ainda que cada umha destas escolas contém um aspecto da verdade (refiro-me ao racionalismo e ao empirismo materialistas, e nom idealistas), ambas som erróneas quanto à teoria do conhecimento no seu conjunto. O movimento materialista dialéctico do conhecimento do sensorial ao racional tem lugar quer num pequeno processo cognoscitivo (por exemplo, conhecer umha só cousa, um só trabalho) quer num grande (por exemplo, conhecer umha sociedade ou umha revoluçom).
No entanto, o movimento do conhecimento nom acaba aí. Deter o movimento materialista dialéctico do conhecimento no conhecimento racional, seria tocar apenas a metade do problema e, mais ainda, segundo a filosofia marxista, a metade menos importante. A filosofia marxista considera que o problema mais importante nom consiste em compreender as leis do mundo objectivo para estar em condiçons de interpretar o mundo, mas em aplicar o conhecimento dessas leis para transformá-lo activamente. Para o marxismo, a teoria é importante, e a sua importáncia está plenamente exprimida na frase seguinte de Lenine: "Sem teoria revolucionária, nom pode haver movimento revolucionário [6]. Mas o marxismo vinca a importáncia da teoria precisa e unicamente porque ela pode servir de guia para a acçom. Se tivermos umha teoria justa, mas nos contentarmos com fazer dela um tema de conversa e a deixarmos arquivada em lugar de pô-la em prática, semelhante teoria, por boa que for, carecerá de qualquer significaçom. O conhecimento começa pola prática, e todo o conhecimento teórico, adquirido através da prática, deve tornar a ela. A funçom activa do conhecimento nom se manifesta apenas no salto activo do conhecimento sensorial para o racional, mas também, o que é mais importante, deve manifestar-se no salto do conhecimento racional à prática revolucionária. O conhecimento que atinge as leis do mundo há que dirigi-lo de novo à pratica revolucionária. O conhecimento que atinge as leis do mundo há que endereçá-lo de novo para a prática transformadora do mundo, há que aplicá-lo novamente à prática da produçom, à prática da luita de classes revolucionária e da luita nacional revolucionária, bem como à prática da experimentaçom científica. Eis o processo de comprovaçom e desenvolvimento da teoria, a continuaçom do processo global do conhecimento. O problema de saber se umha teoria corresponde à verdade objectiva nom se resolve nem pode resolver-se completamente no acima descrito movimento do conhecimento do sensorial ao racional. O único meio para resolver completamente este problema é dirigir de novo o conhecimento racional para a prática social, aplicar a teoria à prática e ver se conduz aos objectivos colocados. Muitas teorias das ciências naturais som reconhecidas como verdades nom apenas porque fôrom criadas polos cientistas, mas porque fôrom comprovadas na prática científica ulterior. Igualmente, o marxismo-leninismo é reconhecido como verdade nom só porque esta doutrina foi elaborada cientificamente por Marx, Engels, Lenine e Staline, mas porque foi comprovada na ulterior prática da luita de classes revolucionária e da luita nacional revolucionária. O materialismo dialéctico é umha verdade universal porque ninguém, na sua prática, pode fugir do seu domínio. A história do conhecimento humano ensina-nos que a verdade de muitas teorias era incompleta e que a comprovaçom na prática permitiu corrigi-las. É por isto que a prática é o critério da verdade e que "o ponto de vista da vida, da prática, deve ser o ponto de vista primeiro e fundamental da teoria do conhecimento [7]. Staline tinha razom ao dizer: " (...) a teoria deixa de ter objecto quando nom se achar vinculada à prática revolucionária, exactamente do mesmo modo que a prática é cega se a teoria revolucionária nom iluminar o seu caminho" [8].
Consuma-se aqui o movimento do conhecimento? A nossa resposta é sim e nom. Quando os homens, como seres sociais, se dedicam à prática transformadora de um determinado processo objectivo (quer natural, quer social) numha etapa determinada do seu desenvolvimento, podem, como conseqüência do reflexo do processo objectivo no seu cérebro e da sua própria actividade consciente, fazer avançar o seu conhecimento desde o sensorial ao racional, e criar ideias, teorias, planos ou projectos que correspondam, em termos gerais, às leis que regem o processo objectivo em questom. A seguir, aplicam estas ideias, teorias, planos ou projectos à prática do mesmo processo objectivo. Se atingirem os objectivos formulados, quer dizer, se na prática deste mesmo processo conseguirem fazer realidade as ideias, teorias, planos ou projectos previamente colocados, ou fazê-los realidade em linhas gerais, entom pode considerar-se consumado o movimento do conhecimento deste processo específico. Podem dar-se por atingidos os objectivos previstos quando, por exemplo, no processo de transformar a natureza, se realiza um projecto de engenharia, se verifica umha hipótese científica, se fabrica um utensílio ou se colheita um cultivo, ou, no processo de transformar a sociedade, se ganha umha greve, se vence numha guerra, ou se cumpre um plano educacional. Porém, polo geral, quer na prática que transforma a natureza, quer na que transforma a sociedade, muito ocasionalmente é que se realizam sem qualquer alteraçom as ideias, teorias, planos ou projectos previamente elaborados polo homem. Isto deve-se a que a gente que se dedica à transformaçom da realidade está sempre sujeita a numerosas limitaçons; nom apenas se acha limitada polas condiçons científicas e técnicas existentes, quanto também polo desenvolvimento do próprio processo objectivo e o grau em que este se manifesta (ainda nom fôrom revelados plenamente os diferentes aspectos e a essência do processo objectivo). Nesta situaçom, devido a que no decurso da prática se descobrem circunstáncias imprevistas, nom raro de modificam parcialmente e por vezes mesmo completamente as ideias, teorias, planos ou projectos. Dito por outras palavras, dam-se casos em que as ideias, teorias, planos ou projectos originais nom correspondem, em parte ou em tudo, à realidade, som parcial ou totalmente erróneos. Amiúde, só após repetidos fracassos se dam corrigido os erros no conhecimento e se fai concordar este com as leis do processo objectivo e, portanto, transformar o subjectivo em objectivo, quer dizer, atingir na prática os resultados esperados. Em todo o caso, quando se chega a este ponto, pode considerar-se consumado o movimento do conhecimento humano relativamente a um dado processo objectivo numha etapa determinada do seu desenvolvimento.
No entanto, considerado o processo no seu avanço, o movimento do conhecimento humano nom está consumado. Em virtude das suas contradiçons e luitas internas, todo processo, quer natural ou social, avança e se desenvolve, e, consoante com isso, também tem que avançar e desenvolver-se o movimento do conhecimento humano. Quanto aos movimentos sociais, os autênticos dirigentes revolucionários nom só devem saber corrigir os erros que se descubram nas suas ideias, teorias, planos ou projectos, como já se tem dito anteriormente, senom que, aliás, quando um determinado processo objectivo avança e muda passando de umha etapa de desenvolvimento a outra, eles devem saber avançar e mudar, de par dela, no seu conhecimento objectivo, e conseguir que todos os que participam na revoluçom fagam o mesmo, quer dizer, devem saber colocar, conforme com as novas mudanças produzidas na situaçom, novas tarefas revolucionárias e novos projectos de trabalho. Num período revolucionário, a situaçom muda com muita rapidez, e se o conhecimento dos revolucionários nom muda também rapidamente consoante com a situaçom, eles nom serám capazes de conduzir a revoluçom à vitória.
Todavia, acontece amiúde que o pensamento se delonga em relaçom com a realidade; isto é devido a que o conhecimento do homem está limitado por numerosas condiçons sociais. Opomo-nos aos teimosos nas fileiras revolucionárias, cujo pensamento nom progride em concordáncia com as circunstancias objectivas em mudança e se tem manifestado na história como oportunismo de direita. Estas pessoas nom vem que a luita dos contrários fijo avançar o processo objectivo, enquanto o seu conhecimento fica entupido ainda na velha etapa. Isto é característico do pensamento de todos os teimosos. O seu pensamento está afastado da prática social, e eles nom som capazes de ir avante guiando o carro da sociedade; limitam-se a irem seguindo o rasto, resmungando que o carro vai rápido de mais e tratando de fazê-lo recuar ou dar volta e regressar.
Também nos opomos ao vácuo palavreado "esquerdista". O pensamento dos "esquerdistas" passa por cima de umha determinada etapa de desenvolvimento do processo objectivo; alguns tomam as suas fantasias por verdades, outros pretendem realizar pola força no presente ideais que apenas som realizáveis no futuro. Afastado da prática presente da maioria das pessoas e da realidade do momento, o seu pensamento traduz-se na acçom como aventureirismo.
O idealismo e materialismo mecanicista, o oportunismo e o aventureirismo, caracaterizam-se pola ruptura entre o subjectivo e o objectivo, pola separaçom entre o conhecimento e a prática. A teoria marxista-leninista do conhecimento, caracterizada pola prática social científica, nom pode deixar de se opor categoricamente a estas concepçons erradas. Os marxistas reconhecem que, no processo geral absoluto do desenvolvimento do universo, o desenvolvimento de cada processo determinado é relativo e que, por isso, na cascata infinita da verdade absoluta, o conhecimento humano de cada processo determinado numha dada etapa de desenvolvimento é só umha verdade relativa. A soma total das incontáveis verdades relativas é que constitui a verdade absoluta [9]. O desenvolvimento de todo processo objectivo está cheio de contradiçons e luitas, como também o desenvolvimento do movimento do conhecimento humano. Todo movimento dialéctico do mundo objectivo reflecte-se, tarde ou cedo, no conhecimento humano. Na prática social, o processo de nascimento, desenvolvimento e extinçom é infinito. E assim o é o processo de nascimento, desenvolvimento e extinçom no conhecimento humano. À medida que avança cada vez mais longe a prática do homem que transforma a realidade objectiva conforme determinadas ideias, teorias, planos ou projectos, mais e mais profundo se vai fazendo o conhecimento que da realidade objectiva o homem tem. Nunca terminará o movimento de mudança no mundo da realidade objectiva, e também nom terá fim a cogniçom da verdade polo homem através da prática. O marxismo-leninnismo nom esgotou em modo nengum a verdade, senom que no decurso da prática se abre sem cessar o caminho para o seu conhecimento. A nossa conclusom é a unidade concreta e histórica do subjectivo e o objectivo, da teoria e a prática, do saber e o fazer, e opomo-nos a todas as ideias erradas, de "esquerda" ou de direita, ideias que se afastam da história concreta.
Na presente época do desenvolvimento na sociedade, a história fijo recair sobre os ombros do proletariado e o sue partido a responsabilidade de conhecer correctamente o mundo e transformá-lo. Este processo, o da prática transformadora do mundo, que está determinado consoante com o conhecimento científico, tem chegado já a um momento histórico na China e na Terra toda, a um grande momento sem precedentes na história, quer dizer, o momento de acabar completamente com as trevas na China e no resto da Terra, e transformar o nosso mundo nom mundo luminoso, nunca visto antes. A luita do proletariado e dos povos revolucionários pola transformaçom do mundo implica o cumprimento das seguintes tarefas: transformar o mundo objectivo e, ao mesmo tempo, transformar o seu próprio mundo subjectivo, quer dizer, a sua própria capacidade cognoscitiva e os relacionamentos entre o seu mundo subjectivo e o objectivo. Estas transformaçons já estám em marcha numha parte do globo terrestre, a Uniom Soviética. Ali continua-se a promover este processo de transformaçons. Os povos da China e do resto do orbe também estám a passar ou passarám por semelhante processo. E o mundo objectivo a transformar inclui também todas as pessoas opostas a estas transformaçons, pessoas que tenhem de passar por umha etapa de coacçom antes de poderem entrar na etapa de transformaçom consciente. A época em que a humanidade inteira proceda de maneira consciente à sua própria transformaçom e à do mundo, será a época do comunismo mundial.
Descobrir a verdade através da prática e, mais umha vez através da prática, comprová-la e desenvolvê-la. Partir do conhecimento sensorial e desenvolvê-lo activamente convertendo-o em conhecimento racional; a seguir, partir do conhecimento racional e guiar activamente a prática revolucionária para transformar o mundo subjectivo e o mundo objectivo. Praticar, conhecer, praticar outra vez e conhecer de novo. Esta forma repete-se em infinitos ciclos e, com cada ciclo, o conteúdo da prática do conhecimento eleva-se a um nível mais alto. Tal é no seu conjunto a teoria materialista dialéctica do conhecimento, e tal é a teoria materialista dialéctica da unidade entre o saber e o fazer.
Notas:
[*] No nosso Partido havia certo número de camaradas dogmáticos que, durante longo tempo, rejeitárom a experiência da revoluçom chinesa, negárom a verdade de o marxismo "nom ser um dogma, mas um guia para a acçom", e tentárom intimidar a gente com palavras e frases das obras marxistas, tiradas mecanicamente fora do contexto. Havia também certo número de camaradas empíricos que, durante longo tempo, se limitárom à sua fragmentária experiência pessoal, nom entendêrom a importáncia da teoria para a prática revolucionária e nom vírom a revoluçom no seu conjunto; embora trabalhassem com diligência, figérom-no a cegas. As ideias erróneas de uns e outros, e em particular dos mais dogmáticos, causárom entre 1931 e 1934, enormes danos à revoluçom chinesa; aliás, os dogmáticos, disfarçados de marxistas, deorientárom grande número de camaradas. "Sobre a prática" foi escrito com o intuito de denunciar, do ponto de vista da teoria marxista do conhecimento, os erros subjectivistas de dogmatismo e de empirismo no Partido, nomeadamente o do dogmatismo. Este trabalho foi intitulado "Sobre a prática" porque pom ênfase na denúncia do dogmatismo, variedade do subjectivismo que menospreza a prática. As concepçons contidas neste trabalho fôrom expostas polo camarada Mao Ze Dong numha palestra no Instituto Político e Militar Antijaponês de Yenán.
[1] V. I. Lenine: Resumo do livro de Hegel "Ciência da lógica".
[2] Vejam-se C. Marx, Tese sobre Feuerbach e V. I. Lenine, Materialismo e empiriocriticismo, II, 6
[3] Célebre romance histórico chinês escrito por Luo Kuan-chung (¿1330-1400?)
[4] V. I. Lenine: Resumo do livro de Hegel "Ciência da lógica".
[5] V. I. Lenine di: "Para compreender, há que começar a compreender e a estudar de umha maneira empírica, e elevar-se do empírico ao geral." Ibíd.
[6] V. I. Lenine: Quê fazer?, Ibíd.
[7] V. I. Lenine: Materialismo e empiriocriticismo, II, 6.
[8] J. V. Staline: "Os fundamentos do leninismo", III.
[9] Veja-se V. I. Lenin, Materialismo e empiriocriticismo, II, 5.
domingo, 16 de novembro de 2008
O Plano da China Para Tornar-se Superpotência.
Enver Hoxha.
Ao analisar a estratégia global do imperialismo norte-americano e do social-imperialismo soviético para dominar o mundo, ao analisar o surgimento e desenvolvimento das diferentes variantes do revisionismo contemporâneo, bem como o combate de todos esses inimigos ao marxismo-leninismo e à revolução, também falamos inicialmente sobre o lugar e a estratégia do revisionismo chinês.
A própria China qualifica de marxista-leninista a linha política que segue, mas a realidade mostra o contrário. É precisamente essa realidade que nós, marxista-leninistas, devemos desmascarar. Não devemos permitir que as teorias revisionistas chinesas passem por teorias marxistas, não devemos admitir que a China, no caminho que está trilhando, finja lutar pela revolução quando na realidade opõe-se a ela.
Com a política que a China segue, está se tornando ainda mais claro que ela busca reforçar as posições do capitalismo em seu interior e instaurar sua hegemonia no mundo, tornar-se uma grande potência imperialista, para que também ela ocupe, como se diz, "o lugar que lhe cabe".
A história mostra que qualquer grande país capitalista visa tornar-se uma grande potência mundial, conseguir adiantar-se às demais grandes potências, concorrer com elas pelo domínio mundial. Diversos têm sido os caminhos seguidos pelos grandes Estados burgueses para transformarem-se em potências imperialistas, caminhos condicionados por determinadas circunstâncias históricas e geográficas, pelo desenvolvimento das forças produtivas, etc. Os Estados Unidos seguiram uma trajetória distinta das velhas potências européias, como a Inglaterra, França e Alemanha. Estas últimas se formaram enquanto tal com base em ocupações coloniais.
Após a II Guerra Mundial os Estados Unidos permaneceram a maior potência capitalista. Com base no grande potencial econômico e militar de que dispunham e no desenvolvimento do neocolonialismo, transformaram-se numa superpotência imperialista. Mas não passou muito tempo e somou-se a eles outra superpotência, a União Soviética, que se transformou em superpotência imperialista após a morte de Stálin e depois que a direção kruschoviana traiu o marxismo-leninismo. A União Soviética aproveitou com esse fim o grande potencial econômico, técnico e militar erigido pelo socialismo.
Encontramo-nos agora diante dos esforços de outro grande Estado para tornar-se superpotência, da China hoje, pois também ela trilha rapidamente o caminho o capitalismo. Mas a China carece de colônias, carece de uma grande indústria desenvolvida, carece em geral de uma economia forte, de um grande potencial termo-nuclear no nível possuído pelas duas outras superpotências imperialistas.
Para tornar-se superpotência é absolutamente necessário ter uma economia desenvolvida, um exército armado com bombas atômicas, é necessário conquistar mercados e zonas de influência, investir capitais em outros países, etc. A China procura preencher o quanto antes esses requisitos. Isso foi dito no discurso de Chu Enlai à Assembléia Popular em 1975 e repetido no XI Congresso do Partido Comunista da China, onde se proclamou que antes do final deste século a China tornar-se-ia um país poderoso e moderno, visando alcançar os Estados Unidos e a União Soviética. Agora todo esse plano foi ampliado e precisado naquilo que se denominou política das "quatro modernizações".
Mas qual o caminho escolhido pela China para tornar-se também uma superpotência? Atualmente as colônias e mercados do mundo estão ocupados por outros. É impossível criar com as próprias forças, em 20 anos, como pretendem os chineses, um potencial econômico e militar equivalente ao dos norte-americanos e soviéticos.
Nessas condições, a China terá de passar por duas fases principais para tornar-se superpotência: primeiro solicitar créditos e investimentos do imperialismo norte americano e dos demais países capitalistas desenvolvidos, comprar tecnologia moderna para aproveitar seus recursos, grande parte dos quais passará aos credores a titulo de dividendos. E segundo, investir a mais-valia conseguida à custa do povo chinês em Estados de diferentes continentes, tal como os imperialistas norte-americanos e os social-imperialistas soviéticos fazem atualmente.
Os esforços da China para tornar-se superpotência concentram-se em primeiro lugar na escolha dos aliados e na criação de alianças. Existem hoje no mundo duas superpotências o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético. Os dirigentes chineses julgaram que devem apoiar-se no imperialismo norte-americano, no qual depositam maiores esperanças de ajuda nos campos da economia, das finanças, da tecnologia, da organização, mas também sob o aspecto militar. O potencial econômico-militar dos Estados Unidos é realmente superior ao do social-imperialismo soviético. Os revisionistas chineses o compreendem muito bem, em que pese dizerem que a América está em decadência. No caminho que estão trilhando, eles não podem se apoiar num parceiro débil, do qual não possam se beneficiar grandemente. Escolheram os Estados Unidos como aliados precisamente porque estes são poderosos.
A aliança com os Estados Unidos, o entendimento da política chinesa com a do imperialismo norte-americano, tem também outros objetivos. Traz consigo uma ameaça para o social-imperialismo soviético, o que se constata na ensurdecedora propaganda e na febril atividade dos dirigentes chineses contra a União Soviética. Ao seguir essa política, a China dá a entender à União Soviética revisionista que sua ligação com os Estados Unidos constitui uma força colossal contra ela no caso de eclosão de uma guerra imperialista
A atual política chinesa visa igualmente estabelecer amizade e alianças com todos os países capitalistas desenvolvidos, dos quais ela procura aproveitar se política e economicamente. A China deseja e procura reforçar a aliança norte-americana com os países do "segundo mundo", como ela os chama. Estimula sua união, ou melhor, sua submissão ao imperialismo norte-americano, que considera como seu maior parceiro.
Isso explica todos os estreitos vínculos que o governo chinês procura estabelecer com todos os Estados capitalistas ricos, com o Japão, a Alemanha Ocidental, a Inglaterra, a França, etc.; isso explica as muitas visitas de delegações governamentais econômicas, culturais e científicas à China procedentes dos Estados Unidos e de todos os demais países capitalistas desenvolvidos, sejam eles repúblicas ou monarquias, assim como as visitas de delegações chinesas a esses países. Isso explica porque a China manifesta-se sistematicamente, em todas as ocasiões, em favor dos Estados Unidos e dos demais Estados capitalistas industrializados, procurando ressaltar qualquer escrito, pronunciamento ou ação desses Estados contra o social-imperialismo soviético.
Essa política dos dirigentes chineses não poderia deixar de chamar a atenção e angariar o devido apoio dos Estados Unidos. Sabe-se que durante a II Guerra Mundial existiam dois lobbies no Departamento de Estado norte-americano quanto à questão chinesa: um pra Chiang Kai-chek e o outro pró Mao Tsetung. Naturalmente, o lobby de Chiang Kai-chek triunfou então no Departamento de Estado e no Senado norte-americano, enquanto que o lobby de Mao Tsetung vencia no terreno no Continente, na China. Entre os inspiradores desse segundo lobby estavam Marshall e Vandemayer, Edgar Snow e outros, que tornaram-se amigos e conselheiros dos chineses, promotores e inspiradores de toda sorte de organismos na nova China. Atualmente esses velhos vínculos estão se renovando, se reforçando, se tornando mais sólidos e concretos. Qualquer um enxerga agora que a China e os Estados Unidos estão se aproximando cada vez mais. Pouco tempo atrás um dos jornais norte-americanos mais bem informados, o "Washington Post", afirmava: "Há agora um consenso norte-americano, apoiado inclusive pela direita, pelos que nutrem pouca simpatia por Pequim. Segundo este consenso, apesar do que tenha ocorrido no passado não há mais razão para se considerar a China como uma ameaça aos Estados Unidos. Além de Taiwan, há poucas coisas quanto às quais não há acordo entre os dois governos. Ambas as partes aceitaram, de fato, adiar a questão de Taiwan com o objetivo de beneficiar-se em outros campos".
O problema de Taiwan, levantado nas relações entre a China e os Estados Unidos, tornou-se algo formal. A China já não insiste no assunto. Absolutamente não se incomoda com Hong-Kong e nem se molesta por Macau permanecer ainda sob domínio dos portugueses. O governo chinês não aceitou a oferta do novo governo português de devolver à China esta colônia, tendo dito que "não se devolve presentes". A existência de tais colônias e algo anacrônico, mas a política pragmática dos dirigentes chineses não se importa com isso. E já que Hong-Kong e Macau permanecem como colônias, por que não ocorrer o mesmo com Taiwan? Ao que parece a China tem grande interesse em que Taiwan continue como está. Além das relações abertas, processada à luz do dia, interessa-lhe também desenvolver através dessas três portas um tráfico disfarçado com os imperialistas norte-americanos, com os imperialistas ingleses, japoneses, etc. Portanto as lorotas que Deng Xiaoping e Li Xiannian tentam impingir, de que as relações sino-americanas dependem da atitude dos Estados Unidos para com Taiwan, não passam de uma cortina de fumaça, a fim de ocultar o caminho de aproximação com os Estados Unidos trilhado pela China com vistas a transformar-se em superpotência.
Carter declarou que os Estados Unidos estabelecerão relações diplomáticas com a China. No que toca a Taiwan, adotarão a atitude do Japão, ou seja, romperão formalmente as relações diplomáticas com a ilha, sem interromper as relações econômicas e culturais e, por baixo destas, também as militares. Na realidade, as relações militares dos Estados Unidos com Taiwan interessam à China, que deseja que os Estados Unidos mantenham tropas em Taiwan, no Japão, na Coréia do Sul e no Oceano Índico, julgando que isso a beneficia, já que constitui um contrapeso para a União Soviética.
Todas essas atitudes vinculam-se ao caminho escolhido pela direção chinesa para tornar a China uma superpotência, procurando desenvolver a economia e elevar o potencial militar através de créditos e investimentos dos Estados Unidos e de outros grandes países capitalistas. Ela justifica esse caminho pretendendo aplicar uma política justa, a linha "marxista" de Mao Tsetung, segundo o qual "a China deve aproveitar os grandes êxitos do mundo, as patentes, as novas tecnologias, colocando o que é estrangeiro a serviço do desenvolvimento interno", etc. Os artigos do "Renmin Ribao" e os discursos dos dirigentes chineses estão repletos de slogans do gênero. Segundo a concepção chinesa, beneficiar-se das invenções e realizações industriais de outros Estados significa contrair créditos e aceitar investimentos dos Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França, Inglaterra e demais países capitalistas que a China corteja.
Os dirigentes chineses fizeram suas as teorias revisionistas segundo as quais grandes países, como a China, que têm muitos recursos, podem contrair créditos junto ao imperialismo norte-americano ou a qualquer Estado, truste ou banco capitalista poderoso, já que teriam condições de saldar as dívidas. Os revisionistas iugoslavos saíram em defesa desse ponto de vista, fazendo publicidade de sua experiência de "construção do socialismo específico" com a ajuda da oligarquia financeira mundial e especialmente do capital norte-americano, dão o exemplo e encorajam a China a seguir essa trilha sem vacilações.
Os grandes países podem saldar os créditos que contraem, mas os investimentos imperialistas nesses grandes Estados, como na União Soviética revisionista, na China ou qualquer outro, não podem deixar de acarretar serias conseqüências neocolonialistas. As riquezas e o suor dos povos passam a ser explorados também em favor dos consórcios e monopólios capitalistas estrangeiros. Os Imperialistas norte-americanos assim como os Estados capitalistas desenvolvidos da Europa Ocidental ou o Japão, que fazem investimentos na China e países revisionistas, objetivam encravar-se ali, visam enlaçar seus consórcios numa estreita colaboração com os principais trustes e ramos industriais destes países.
O investimento de capitais dos Estados imperialistas na China não é um problema tão simples como os revisionistas procuram aparentar, ao considerar essa penetração de capitais como inofensiva, pois não se processaria através de acordos interestatais (embora ultimamente altos dirigentes chineses tenham declarado que aceitarão créditos externos governamentais) e sim através de bancos e companhias privadas, sem complicações e interesses políticos O endividamento de qualquer país, grande ou pequeno, junto a esse ou aquele imperialismo acarreta sempre perigos inevitáveis para sua liberdade, independência e soberania, mais ainda no caso de países economicamente pobres como a China. Um país verdadeiramente socialista não precisa endividar-se. As fontes do desenvolvimento econômico de um país encontram-se nele próprio, em seus recursos, em sua acumulação interna e na força criadora de seu povo. O exemplo da Albânia, um pequeno país, deixa muito claro de quantos meios, fontes e aptidões inesgotáveis dispõe um pais socialista para desenvolver-se. Os meios e fontes de um país grande são muito maiores, quando ele trilha consequentemente o caminho do marxismo-leninismo.
A abertura do mercado chinês para o imperialismo norte-americano e as grandes empresas estadunidenses e outras ocidentais foi acolhida com incontida alegria pelos imperialistas dos Estados Unidos e por toda a burguesia internacional. As multinacionais, os industriais norte-americanos conhecem bem a economia e as grandes riquezas da China; por isso fazem o que podem para edificar ali sua rede econômica, constituir empresas mistas e auferir grandes lucros. Não só as grandes empresas norte-americanas, mas também empresas japonesas, alemãs e de outros países capitalistas desenvolvidos estão atuando dessa forma na China.
A China concluiu agora um contrato com o Japão para fornecer-lhe até dez milhões de toneladas de petróleo por ano. Representantes da ENI italiana foram à China com uma grande equipe a fim de também conseguir licença para prospectar petróleo, mas já encontraram ali grandes grupos de companhias petrolíferas norte-americanas, que haviam se entendido com a China quanto à extração e exploração conjuntas do óleo. A China também vem fazendo o mesmo em outros setores da mineração, como o do ferro e de diferentes minérios que podem ser encontrados em grande quantidade no seu território. Os magnatas alemães do carvão encontram-se agora na China, onde concluíram um contrato de algumas dezenas de bilhões de marcos. Ministros chineses percorrem o Japão, a América do Norte e a Europa de ponta a ponta para conseguir créditos, adquirir novos equipamentos tecnológicos, comprar modernas armas, estabelecer relações técnico-científicas, etc. Todas as portas das instituições e empresas chinesas estão aberas para os empresários de Tóquio, da Wall Street e do Mercado Comum Europeu, que se afanam para ver quem chega primeiro a Pequim, para açambarcar os grandes projetos de "modernização" que o governo chinês oferece. Desta forma, a China também vai entrando círculo infernal da absorção imperialista, do insaciável apetite imperialista de recursos do subsolo e de matérias primas, de exploração da mão-de-obra chinesa.
Sabe-se que o capitalista não concede ajuda a ninguém sem ver, em primeiro lugar, seu próprio interesse econômico, político e ideológico. Não se trata apenas da taxa de lucro que ele recebe. O país capitalista que concede créditos introduz juntamente com eles seu modo de vida, sua maneira de pensar capitalista cria bases no país "ajudado" e espalha-se sub-repticiamente, como uma mancha de óleo, estende sua teia de aranha; e esta aranha permanece sempre ali para devorar todas as moscas que caiam em suas malhas, como ocorreu na Iugoslávia, como ocorre atualmente na União Soviética. A China terá a mesma sorte.
Em conseqüência a China também fará concessões em questões políticas e ideológicas, como já está fazendo, enquanto o mercado chinês tornar-se á um débouché (vertedouro - em francês no original) de grande importância para o imperialismo norte-americano e para as demais potências capitalistas industrializadas.
Os créditos e investimentos norte-americanos, alemães-ocidentais japoneses, etc. na China afetarão inevitavelmente, em maior ou menor escala, sua independência e soberania Tais créditos tornam dependente qualquer Estado que os contraia, pois o credor impõe-lhe sua política. Portanto, qualquer Estado, grande ou pequeno que se introduza nas engrenagens do imperialismo, mutila ou perde a liberdade política, a independência e a soberania. Essa situação de mutilação da soberania verificou-se inclusive na União Soviética que, quando enveredou pelo caminho da restauração do capitalismo, era econômica e militarmente muito mais poderosa do que a China de hoje, que ingressa no mesmo caminho.
Evidentemente, os países pequenos que se introduzem nas engrenagens do imperialismo perdem a liberdade e a independência mais depressa do que países grandes como a China e a União Soviética, nos quais esse processo pode ser mais lento, não só porque têm um potencial econômico e militar superior, mas também porque, apoiados nesse potencial, lutam para manter mercados e ocupar outros novos, para criar e ampliar zonas de influência de forma a pressionar-se mutuamente e mesmo a entrar em guerra, quando não encontram outra saída. Mas nem tudo isso os salva dos grilhões dos créditos e investimentos que acorrentam seus pés. Os créditos e seus juros devem ser pagos. Mas quando não se está em condições de saldá-los contraem-se novas dívidas. As dívidas levam a dívidas, o Capitalista exige proventos e, quando não há como pagá-los, ele encosta o devedor na parede. As empresas monopolistas norte-americanas, por exemplo, que ditam política de seu próprio governo, obrigam-no a defender a qualquer preço seus capitais, a declarar inclusive a guerra se for necessário para resguardá-los.
Todo o ensurdecedor alarido dos dirigentes chineses a respeito do enfraquecimento do imperialismo norte-americano cai por terra quando se observa o zelo que eles mostram em apoiar-se nesse imperialismo, nos capitalistas dos Estados Unidos, para desenvolver a economia de seu país. As declarações dos dirigentes chineses sobre o suposto debilitamento do imperialismo norte-americano são apenas um blefe, assim como é um blefe a declaração sobre o apoio nas próprias forças. Os revisionistas chineses pensam o contrário do que dizem, qualquer um pode constatá-lo em sua prática.
Os jornais oficiais da China expressam frequentemente inquietude com os créditos que a União Soviética social-imperialista contrai junto aos bancos norte-americanos, alemães-ocidentais, japoneses, etc.. Advertem os Estados Unidos e os demais países capitalistas desenvolvidos no sentido de que tenham em mente que a ajuda tecnológica e os créditos fornecidos à União Soviética são empregados no desenvolvimento e fortalecimento do potencial econômico e militar desta, de que a ajuda e os créditos aumentam o perigo ameaçador proveniente do social-imperialismo, o qual, segundo dizem os dirigentes chineses, ocupa hoje o lugar do, III Reich. Por isso, conclama-os a suspender esses créditos o quanto antes. A imprensa chinesa emprega a mesma linguagem de Strauss, o conhecido nazista e revanchista alemão-ocidental.
Não é difícil descobrir o verdadeiro sentido da "inquietude" dos dirigentes chineses com os créditos contraídos pela União Soviética. Naturalmente eles não se importam com a natureza capitalista dos créditos nem com o perigo que apresentam para a soberania do Estado soviético. Mas desejam dizer aos magnatas do capital norte-americano e ao governo dos Estados Unidos, aos capitalistas e governos dos demais países imperialistas que os créditos e a ajuda deveriam ser concedidos não à União Soviética, mas à China, que não lhes oferece qualquer perigo, apenas lucros.
Este é um lado do plano da China para tornar-se superpotência. O outro são os esforços para dominar os países menos desenvolvidos do mundo, para converter-se na liderança daquilo que a China chama "terceiro mundo".
O grupo que domina atualmente na China dá muita ênfase ao "terceiro mundo", incluindo-se intencional e premeditadamente nesse mundo. O "terceiro mundo" dos revisionistas chineses tem um objetivo político bastante preciso. É parte da estratégia que visa transformar o quanto antes a China numa superpotência. A China procura reunir em torno de si todos os países do "terceiro mundo" ou "não-alinhados" ou "em desenvolvimento" para criar uma grande força que não só aumentará o poderio chinês em geral, mas também a ajudará a contrapor-se às duas outras superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, a ter um peso maior na barganha pela divisão de mercados e zonas de influência, a conquistar o status de verdadeira superpotência imperialista. A China trata de realizar seu objetivo de agrupar o maior número de Estados em torno de si sob a falsa palavra-de-ordem de que defende a libertação dos povos do neocolonialismo e a passagem ao socialismo através da luta contra o imperialismo. Esse imperialismo é algo abstrato, mas ela acentua que o imperialismo mais perigoso é o soviético.
A China lançou tal palavra-de-ordem demagógica e despida de conteúdo teórico na esperança de valer-se dela em função de seus fins hegemonistas. Visa inicialmente instaurar o domínio chinês no chamado terceiro mundo e a seguir manipular esse "mundo" de acordo com seus interesses imperialistas. Por enquanto a China procura esconder tudo isso com o renome de país socialista que adquiriu. Especula, dizendo que um país socialista não pode ter concepções escravizantes, de conduzir os demais pelo cabresto, de praticar chantagem, de combatê-los, oprimi-los e explorá-los. Emprega essa palavra-de-ordem com base no fato de que o Partido Comunista da China, criado pelo "grande" Mao Tsetung, tem a reputação de partido marxista-leninista, fiel à teoria de Marx e Lênin, que combate todos os males do sistema capitalista, a espoliação colonial, etc.
Disfarçada sob essa condição fictícia, oculta por uma expressão - "terceiro mundo" - e incluindo-se nesse "mundo" sem nenhum critério ou definição de classe, a China pensa que pode atingir mais facilmente seu objetivo estratégico de instaurar sua hegemonia sobre ele. A União Soviética empregou esse mesmo engodo para com outros países. Todos os revisionistas kruschovianos proclamam dia e noite que são "comunistas" e que seus partidos são "verdadeiros partidos marxista-leninistas". Os revisionistas soviéticos procuram instaurar sua hegemonia no mundo sob essa mesma máscara. Consequentemente, podemos dizer, que não existe qualquer diferença essencial entre a atuação chinesa e a do social-imperialismo soviético.
Todo esse desenvolvimento da política e da atuação chinesa comprova cabalmente as características do imperialismo definidas pelo marxismo-leninismo, como o domínio da oligarquia financeira que busca mercados, que procura conquistar o mundo e instaurar sua hegemonia em toda parte. Assim, a China procura penetrar nos países do "terceiro mundo" e assegurar "um lugar ao sol". Mas esse "lugar" deve ser conquistado com grandes sacrifícios.
Para se introduzir no "terceiro mundo", para ocupar mercados, é preciso capital. As classes dominantes que se encontram no poder nos países do "terceiro mundo" exigem investimentos, exigem créditos e "ajuda". Mas a China não tem condições de "ajudá-las" em grande escala, pois não possui o potencial econômico exigido. É precisamente esse potencial que ela trata de criar agora com a ajuda do imperialismo norte-americano. Nessas condições, a burguesia que domina os países do "terceiro mundo" tem claro que por enquanto não pode beneficiar-se grandemente da China, nem nos aspectos econômico e tecnológico nem no militar. Pode beneficiar-se mais do imperialismo norte-americano e do social-imperialismo soviético, dotados de grande potencial econômico, técnico e militar.
Apesar disso, como todo país que tem intenções imperialistas, a China luta e lutará ainda mais por mercados, tenta e tentará ainda mais expandir sua influência e seu domínio. Esses planos transparecem desde gora. Ela está criando seus bancos não só em Hong-Kong, onde eles já existem de há muito, mas também na Europa e em outras áreas. Combaterá especialmente para criar bancos e exportar capitais para os países do "terceiro mundo". Por enquanto ela faz muito pouco nesse campo. A "ajuda" da China reduz-se à construção de alguma fábrica de cimento, ferrovia ou hospital, pois suas possibilidades só vão até aí. Somente quando os investimentos norte-americanos, japoneses etc. na China começarem a dar os frutos que esta deseja, quer dizer, quando a economia, o comércio e a técnica militar se desenvolverem, a China será capaz de empreender uma verdadeira expansão econômica e militar em ampla escala. Mas para consegui-lo é preciso tempo.
Até então a China manobrará, como já começou a manobrar, com a política de "ajuda" e créditos sem juros ou a juros extremamente baixos, quando os soviéticos e norte-americanos exigem muito mais. Enquanto os capitais chineses não tiverem condições de arrojar-se para o exterior, a direção revisionista da China concentrará a atenção no aspecto propagandístico da parca "ajuda" e dos poucos créditos que concede a países em desenvolvimento, assinalando seu "caráter internacionalista" e "desinteressado", acompanhando-os com a palavra-de-ordem do "apoio nas próprias forças" para libertar e construir o país.
Quanto mais a China desenvolver-se econômica e militarmente, mais procurará introduzir-se e dominar nos países pequenos e menos desenvolvidos, através da exportação de seus capitais, e então não pedirá mais juros de 1 ou 2% para seus créditos, mas atuará como todos os outros.
Porém nenhum desses planos e esforços pode realizar-se facilmente. Os países imperialistas e capitalistas desenvolvidos, que têm influência no chamado terceiro mundo, não permitem que a China ocupe, sem esforço, os mercados que eles conquistaram de há muito com guerras de rapina. Eles não só se aferram às velhas posições como procuram de todas as maneiras ocupar outras novas e impedem que a China ponha a mão nesses países.
Tanto quando se encontra em dificuldades como quando está em florescimento, o imperialismo é implacável para com qualquer parceiro. Para conseguir maiores lucros, ele pode às vezes ser constrangido a fazer alguma concessão, mas em geral trata de reforçar os grilhões, em relação não só aos países débeis mas também aos desenvolvidos, como é o caso dos Estados capitalistas industrializados. Os Estados Unidos, por exemplo, sempre seguiram essa política em relação a seus aliados capitalistas quando estes se depararam com dificuldades nas guerras imperialistas que eclodiram entre eles. Mesmo depois de tais guerras, quando esses países procuravam reerguer-se, o imperialismo norte-americano empenhou todas as forças para impedi-los de introduzirem-se nos demais países onde havia instaurado seu domínio. Dessa forma, ao "ajudar" no após-guerra a Inglaterra e a França, que saíram debilitadas do conflito, os Estados Unidos penetraram a fundo nos mercados da libra, do franco, etc. Os monopólios e cartéis americanos da metalurgia, da química, dos transportes e de muitos outros ramos vitais ao desenvolvimento do capitalismo penetraram avassaladoramente nos cartéis da Inglaterra, da França, etc., colocando tais países na dependência do imperialismo estadunidense. Esse imperialismo selvagem e insaciável, assim como qualquer outro, não pode atuar distintamente na China.
Levando em conta as dificuldades com que se defronta para penetrar econômica e militarmente nos países do "terceiro mundo", a China pensa poder assegurar a hegemonia implantando sua influência política e ideológica. Pensa alcançá-la trabalhando em três sentidos: não combater o imperialismo norte-americano nem as camarilhas dominantes nos países capitalistas, pelo contrário, aliar-se a este imperialismo e a estas camarilhas; combater o social-imperialismo soviético, que está em suas fronteiras, para debilitar e desbaratar suas bases na Ásia, na África e na América Latina; enganar o proletariado e os povos tão sofridos desses Continentes por meio da demagogia e de manobras pseudo-revolucionárias e pseudo-socialistas, solapando qualquer movimento libertador revolucionário.
O imperialismo norte-americano e as demais potências imperialistas compreendem perfeitamente esses intentos da China. Os países do "terceiro mundo" também o compreendem e por isso duvidam, vêem que a China está blefando com eles, que seu objetivo não é apoiá-los e ajudá-los, mas tornar-se ela própria uma superpotência. A maioria dos dirigentes no poder nos países do Chamado terceiro mundo possuem antigas e estreitas ligações com o imperialismo norte-americano ou com potências capitalistas desenvolvidas Inglaterra, a França, a Alemanha, a Bélgica, o Japão, etc.. Por isso o flerte da China com o "terceiro mundo" não causa dores de cabeça aos Estados imperialistas e capitalistas desenvolvidos.
Os esforços da China para insinuar-se no "terceiro mundo" por meio de sua política e ideologia do chamado pensamento Mao Tsetung também não podem ter êxito porque sua ideologia e sua linha política são caóticas. A linha política da China é confusa, é uma linha pragmática que vacila e muda segundo as conjunturas e interesses do momento. As classes dominantes dos Estados do "terceiro mundo" não temem essa ideologia, pois compreendem que ela não postula a revolução e a verdadeira libertação nacional dos povos. Para exercer mais facilmente sua opressão e exploração sobre o povo, a burguesia desses países criou seus próprios partidos, rotulados das mais diversas formas. Estreitamente ligados aos capitais estrangeiros investidos nos Estados do chamado terceiro mundo, esses partidos não têm dificuldades em combater e desmascarar a linha chinesa. Por isso os dirigentes revisionistas chineses optaram pela via dos sorrisos aos partidos desses países e procuram a todo custo e a qualquer momento tratá-los de forma "doce como mel".
Com o plano de dominar o "terceiro mundo", a China trata de canalizar na medida do possível o movimento das massas trabalhadoras desse "mundo" em proveito próprio. Mas atualmente os povos oprimidos, com o proletariado à frente, já não se encontram mais mesma situação do fim do século XIX ou do início do século XX. Resistem a qualquer política hegemonista e à submissão às grandes potências imperialistas sejam elas de velho ou de novo tipo, a norte-americana a soviética ou a chinesa. Hoje as amplas massas dos povos do mundo em geral despertaram e de uma ou de forma conseguiram conquistar através de sua luta certa consciência para defender seus direitos econômicos e políticos. Os Povos do chamado terceiro mundo não podem deixar de ver que a China não trabalha para levar as idéias da revolução e da emancipação nacional aos seus países, mas para sufocar a revolução que impede a penetração da influência chinesa. A orientação chinesa de aliança com os Estados Unidos e outros países neocolonialistas desmascara igualmente o social-imperialismo chinês aos olhos dos povos.
A China não pode fazer uma propaganda positiva e revolucionária nos países do "terceiro mundo" inclusive porque entraria em conflito com a superpotência da qual procura beneficiar-se com os capitais que esta possa investir na China e com sua tecnologia avançada. A China não pode fazer tal propaganda igualmente porque a revolução derrubaria precisamente as camarilhas reacionárias dominantes em alguns países do chamado terceiro mundo que ela apóia e ajuda a sustentar no poder.
O grande afã dos dirigentes chineses em transformar o quanto antes seu país numa superpotência e instaurar sua hegemonia em toda parte, sobretudo no chamado terceiro mundo, impulsionou-os a basear sua estratégia e política externa na instigação da guerra imperialista. Os dirigentes chineses desejam veementemente um choque frontal entre os Estados Unidos e a União Soviética na Europa, em que a China, a distância, aqueceria as mãos com o incêndio atômico que destruiria seus dois principais rivais e do qual sairia como única e todo-poderosa dominadora do mundo.
Até que se sinta bastante forte para concorrer com as outras superpotências, até conquistar o "merecido posto" de superpotência, a China buscará paz para si própria e guerra para os outros. As indisfarçadas manobras diplomáticas dos revisionistas chineses para incitar a guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética, de forma que eles próprios fiquem de lado, ocupando-se das "modernizações", vinculam-se à sua atual necessidade de paz. Não foi fortuita a declaração de Deng Xiaoping de que não haverá guerra durante vinte anos. Com isso ele queria dizer às superpotências e aos demais países imperialistas que não tivessem medo da China durante esses vinte anos. Ao mesmo tempo, os dirigentes chineses estimulam uma guerra entre as superpotências na Europa, longe da China, que ficaria a distância de seus riscos e implicações. Se isso será possível é outra coisa, mas os dirigentes chineses trabalham nesse sentido, pois julgam indispensável ter tranqüilidade durante o período que consideram necessário para alcançar o objetivo de transformar a China em superpotência.
A China propugna em altos brados o fortalecimento da "unidade européia", da "unidade dos países capitalistas desenvolvidos da Europa". Apóia tal unidade em relação a todas as questões, ufanando-se diante de velhos lobos e raposas, "ensinando-os" a reforçar sua unidade militar e econômica, a unidade organizativa estatal, etc., face ao grande perigo do social-imperialismo soviético. Mas eles não precisam das lições da China, pois têm condições de saber e sabem muito bem de onde provém o perigo.
Os países desenvolvidos do Ocidente não são ingênuos a ponto de aplicar à la lettre (ao pé da letra - em francês no original) os conselhos e satisfazer os desejos chineses. Fortalecem-se para enfrentar um eventual perigo proveniente da União Soviética, mas ao mesmo tempo fazem grandes esforços para não se indispor com ela, para não ir muito longe, nem enfurecer o "urso russo". Naturalmente isso contraria o desejo da China.
Agrada aos Estados capitalistas da Europa e aos Estados Unidos ver a China ativar suas contradições com os soviéticos, pois dizem a estes por vias transversas: "Vosso inimigo principal é a China, enquanto que nós, juntamente convosco, buscamos criar uma détente, uma coexistência pacifica, independente do que ela diga". Por outro lado, esses Estados, enquanto fingem desejarem a paz, armam-se para reforçar sua hegemonia e sua unidade militar contra a revolução, seu inimigo principal. É este o objetivo de todas as reuniões do gênero das de Helsinque e Belgrado, que se prolongam a mais não poder e assemelham-se ao Congresso de Viena após a queda de Napoleão, conhecido como o congresso dos bailes e soirées.
Os dirigentes chineses, conforme afirmou oficialmente Deng Xiaoping numa entrevista concedida ao diretor da AFP, chamam à criação de "uma ampla frente que incluirá o terceiro mundo, o segundo mundo e os Estados Unidos" para combater o social-imperialismo soviético.
A estratégia da direção revisionista da China, de incitar o Imperialismo norte-americano, a Europa Ocidental, etc., a uma guerra contra o social-imperialismo soviético, cria maiores riscos de uma guerra entre a própria China e a União Soviética do que de uma guerra entre a União Soviética e os Estados Unidos com seus aliados da OTAN.
Aquilo que a China faz ao incitar os demais à guerra, o imperialismo norte-americano, os países capitalistas desenvolvidos e todos os países dominados por camarilhas burguesas capitalistas fazem também ao açular a China e a União Soviética uma contra a outra. Portanto, há maior probabilidade de que a política dos Estados Unidos e a própria estratégia errônea da China estimulem a União Soviética a fortalecer-se ainda mais militarmente e, como potência imperialista que é, golpear primeiro a China.
Por seu lado, a China tem uma acentuada propensão para golpear a União Soviética quando sentir-se poderosa, pois possui grandes ambições territoriais quanto à Sibéria e outros territórios do Extremo Oriente. Ela levantou há tempos essas reivindicações, porém pretenderá mais ainda quando estiver preparada, quando houver posto de pé um exército equipado com toda sorte de armas. É este o sentido das palavras de Hua Guofeng ao ex-primeiro-ministro conservador inglês Eduard Heath, quando declarou: "Esperamos ver uma Europa unida e poderosa, confiamos que a Europa por sua vez espera ver uma China poderosa". Numa palavra Hua Guofeng disse à grande burguesia européia. "Vocês se fortalecem e atacam do Ocidente, enquanto nós, chineses, nos fortaleceremos e atacaremos a União Soviética, do Oriente".
A política chinesa descortinou para os Estados Unidos um caminho amplo e muito frutífero, desbravado inicialmente por Mao Tsetung, Chu Enlai e Nixon. Lançaram-se muitas pontes entre os Estados Unidos e a China, pontes camufladas, pontes que geraram efeitos e resultados. Nixon dizia: "Devemos construir uma ponte tão grande que ligue São Francisco a Pequim". O convite de Mao Tsetung e Chu Enlai a Nixon, após o escândalo de Watergate, e sua recepção por Mao tinham uma razão de ser e um objetivo determinado. Queriam dizer que a amizade com os Estados Unidos, longe de ser uma amizade conjuntural entre pessoas, é uma amizade entre países, entre a China e os Estados Unidos, em que pese o presidente que abriu esse caminho ter sido derrubado de seu posto por suas patifarias.
Agora que Carter chegou ao poder, as relações de amizade entre a China e os Estados Unidos estão encorpando. A atual atitude da China interessa grandemente aos Estados Unidos e Carter acarinha de muitas formas a estratégia chinesa.
Os Estados Unidos têm interesse em ajudar a China política, militar e economicamente, em todos os domínios, para atiçá-la contra a União Soviética. Deram à China o segredo atômico. Agora isso está claro. Deram-lhe igualmente os mais modernos computadores para servir à guerra nuclear. A China adquiriu informação completa para construir submarinos nucleares. Agora se fala aberta e oficialmente em Washington no fornecimento de modernas armas à China. Todos esses "benefícios" que os Estados Unidos oferecem à China não têm, evidentemente, o objetivo de fazer dela uma potência terrestre e naval tão grande que chegue a pôr em risco os próprios Estados Unidos, como fez o Japão na II Guerra Mundial. Não, o imperialismo norte-americano mede com cuidado a chamada ajuda que fornece a todo mundo e especialmente a que concede à China.
Dessa forma, a intenção e os febris esforços da China para tornar-se superpotência, para contrabalançar tanto os Estados Unidos como a União Soviética, não podem deixar de levar a novos atritos, a conflagrações, a guerras, que podem ter caráter local, mas também o caráter de uma guerra geral.
Toda a "teoria dos três mundos", toda a sua estratégia, as alianças e "frentes" que propõe, os objetivos que busca alcançar incitam a guerra imperialista mundial.
Nikita Kruschov e os revisionistas contemporâneos desenvolveram a famigerada teoria da "coexistência pacífica" kruschovista, que pregava a "paz social", a "competição pacífica", o "caminho pacífico" da revolução, o "mundo sem armas e sem guerras". Essa teoria visava enfraquecer a luta de classes, encobrindo e aplainando as contradições fundamentais de nossa época. Kruschov pregava a extinção das contradições entre a União Soviética e o imperialismo norte-americano em particular e das contradições entre os sistemas socialista e capitalista em geral. Sustentava a tese de que atualmente, com as transformações ocorridas no mundo, a contradição histórica entre o socialismo e o capitalismo seria superada através da competição pacífica entre ambos, uma competição econômica, político-ideológica, cultural, etc..
"Deixemos o tempo demonstrar e dizer-nos quem tem razão", afirmava Kruschov, e nessa competição os povos escolheriam livremente, "na santa paz", o regime mais conveniente. Nikita Kruschov aconselhava os povos a entregar seus recursos às superpotências e a esperar que essa famosa "competição pacífica" redundasse na garantia da liberdade, da independência, do bem-estar. Naturalmente essa política antimarxista foi desmascarada e nosso Partido foi o primeiro a abrir fogo contra ela.
O Partido Comunista da China seguiu, uma política como a de Kruschov, desde o tempo em que Mao Tsetung estava vivo. Também ele conclama ambas as partes, tanto o proletariado como a burguesia, tanto os povos como seus opressores, a cessar a luta de classes, a unir-se apenas contra o social-imperialismo soviético e a esquecer o imperialismo norte-americano.
A teoria dos "três mundos" é reacionária tal como a teoria da "coexistência pacífica" de Kruschov. Mas enquanto Kruschov e seus seguidores, porta-vozes do revisionismo contemporâneo posavam de pacifistas, Mao Tsetung, Deng Xiaoping, Hua Guofeng e companhia apresentam-se abertamente como belicistas. Querem dar à coalizão imperialista-capitalista, que inclui a própria China, as cores de uma guerra revolucionária, a configuração de uma luta pela vitória do proletariado e da libertação dos povos. Mas na realidade a "teoria" de Mao Tsetung e do Partido Comunista da China sobre os "três mundos" não conclama à revolução e sim à guerra imperialista.
O acirramento das contradições e da rivalidade entre as potências e agrupamentos imperialistas está prenhe de perigos de deflagração de conflitos armados, de guerras rapaces e escravizantes. Esta é uma conhecida tese do marxismo-leninismo, cabalmente comprovada pela história. O desenvolvimento da situação internacional em nossos dias volta a mostrar claramente sua correção.
O Partido do Trabalho da Albânia levantou muitas vezes a voz para desmascarar a ensurdecedora propaganda pacifista difundida pelas superpotências para adormecer a vigilância dos povos e países amantes da paz, para entorpecê-los com ilusões e deixá-los desprecavidos. Mais de uma vez chamou atenção para o fato de que o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo russo estão conduzindo o mundo a uma nova guerra mundial e de que a explosão dessa guerra constitui um perigo real e não imaginário. Tal perigo não pode deixar de preocupar constantemente os povos, as amplas massas trabalhadoras, as forças e países amantes da paz, os marxistas-leninistas e homens progressistas em todo o mundo, os quais tampouco podem permanecer passivos, de mãos amarradas diante dele. Mas o que se deve fazer para deter a mão dos fautores imperialistas da guerra?
A solução não pode ser o caminho da capitulação e da submissão a eles nem o do amainamento da luta contra esses belicistas. Os fatos comprovaram que os compromissos e concessões sem princípios dos revisionistas kruschovianos não tomaram o imperialismo norte-americano mais brando, mais bem comportado e pacífico, ao contrário, tornaram-no mais arrogante e aumentaram seu apetite. Mas os marxistas-leninistas não se prestam tampouco a incitar um Estado ou grupo imperialista contra outro, não apelam às guerras imperialistas, pois quem sofre com elas são os povos. O grande Lênin acentuava que nossa política não visa atiçar a guerra e sim impedir que os imperialistas se unam contra o país socialista.
"... Caso nós realmente precipitássemos os operários e camponeses na guerra - dizia ele - seria um crime. Mas toda nossa política e propaganda absolutamente não objetivam levar os povos à guerra e sim pôr-lhe fim. E a experiência foi suficiente para demonstrar que só a revolução socialista é uma saída para as eternas guerras". (V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXXI, pg. 540).
Portanto, levantar a classe operária, as amplas camadas de trabalhadores e os povos em ações revolucionárias para deter a mão dos imperialistas fautores da guerra em seus países é a única via correta. Os marxistas-leninistas sempre foram e são os mais firmes adversários das guerras injustas.
Lênin ensinou aos revolucionários comunistas que sua tarefa consiste em desbaratar os planos belicosos do imperialismo e em impedir a eclosão da guerra. Caso isso não seja alcançado, precisam mobilizar a classe operária, as massas do povo e transformar a guerra imperialista em guerra revolucionária e emancipadora.
Os imperialistas e social-imperialistas têm a guerra agressiva no sangue. Sua intenção de escravizar o mundo leva-os à guerra. Mas embora a guerra mundial imperialista seja deflagrada pelos imperialistas, é o proletariado, são os povos, os revolucionários e todas as pessoas progressistas que pagam por ela com seu sangue. É por esse motivo que os marxistas-leninistas, o proletariado e os povos do mundo são contra a guerra mundial imperialista e combatem sem tréguas para frustrar os planos dos imperialistas, para impedi-los de conduzir o mundo a uma nova carnificina.
Deriva daí que não se deve pregar a guerra imperialista, como fazem os revisionistas chineses, mas lutar contra ela. O dever dos marxistas-leninistas é erguer o proletariado e os povos do mundo na luta contra seus opressores para arrebatar-lhes o poder, os privilégios, e instaurar a ditadura do proletariado. A China não faz isso, o Partido Comunista da China não trabalha para isso. Com sua teoria revisionista, esse Partido debilita e afasta a revolução, divide as forças de vanguarda do proletariado, os partidos marxistas-leninistas que organizarão e dirigirão a revolução.
O Caminho recomendado pela direção chinesa é um engodo, é um caminho que não corresponde à nossa doutrina, o marxismo-leninismo. Pelo contrário, a linha revisionista chinesa debilita, abate o proletariado e os povos, submete-os ao risco de suportar sobre seus ombros uma guerra sanguinária, a guerra imperialista, a guerra criminosa tão odiada pelo proletariado e os povos.
Pelo mesmo motivo, a teoria de Mao Tsetung sobre os "três mundos", a atividade política do Partido Comunista da China e do Estado chinês não podem de forma alguma ser qualificadas como marxista-leninistas e revolucionárias.
Quando Kruschov preconizava a competição econômica, ideológica e política entre o socialismo e o imperialismo, os dirigentes chineses diziam-se contrários a essa tese e afirmavam que para se realizar a verdadeira coexistência pacífica era preciso combater o imperialismo, já que a "coexistência" não pode destruí-lo, não pode levar à vitória da revolução e da libertação dos povos.
Mas tais declarações ficaram no papel. Na realidade, a direção do Partido Comunista da China também era e é favorável à coexistência pacífica do tipo kruschovista. O documento que mencionamos, "Proposição Acerca da Linha Geral do Movimento Comunista Internacional", afirma: "A política de princípios é a única política justa... O que significa política de princípios? Significa que ao apresentar e elaborar qualquer política devemos permanecer nas posições proletárias, partir dos interesses fundamentais do proletariado e guiarmo-nos pela teoria e pelas teses fundamentais do marxismo leninismo". Assim declarou o Partido Comunista da China, mas o que fez e o que está fazendo agora? Fez e faz exatamente o oposto.
No documento citado e em outras ocasiões, o Partido Comunista da China declarou que "deve-se desmascarar o imperialismo norte-americano como o maior inimigo da revolução, do socialismo e dos povos de todo o mundo". Agregou entre outras coisas que "não é correto apoiar-se nem no imperialismo norte-americano nem em qualquer outro imperialismo, não é correto apoiar-se nos reacionários". Mas o Partido Comunista da China não aplicou estas teses. O Partido do Trabalho da Albânia, que se apóia fortemente nos princípios fundamentais do marxismo-leninismo, atém-se com decisão à luta contra o imperialismo e o social-imperialismo. Precisamente por esta razão a Albânia socialista opõe-se à China e o Partido do Trabalho da Albânia opõe-se ao Partido Comunista da China. Os dirigentes chineses acusam a nós, albaneses, de não fazermos "uma análise marxista-leninista da situação internacional e das contradições" e, consequentemente, não seguirmos o caminho dos chineses, de conclamar a "Europa Unida", o Mercado Comum Europeu e os proletários do mundo a se unirem aos norte-americanos contra os soviéticos. Sua conclusão é que, já que não apoiamos o imperialismo norte-americano e a "Europa Unida", etc., favoreceríamos o social-imperialismo soviético.
Essa atitude é não só revisionista, sob o manto do "anti-revisionismo", como também hostil e caluniosa com a Albânia socialista. O imperialismo norte-americano é agressivo, belicoso e belicista. Os Estados Unidos da América não querem apenas o status quo, como pretendem os chineses, mas também a expansão, do contrário não haveria motivos para terem contradições com a União Soviética. A citação de Mao mencionada por eles, de que "a América transformou-se num rato, que todo mundo persegue na rua gritando: matem-no, matem-no!", busca demonstrar que somente a União Soviética desejaria a guerra, enquanto os Estados Unidos não. Em sua condescendência para com os Estados Unidos, eles apelam a que não se golpeie o Estado que "reduziu-se à condição de um rato", mas que deve tornar-se aliado da China. Eis a estratégia antimarxista do "marxista" Mao!
Com base na análise apoiada na teoria dos "três mundos", a "estratégia" chinesa concluiu "definitivamente" que "a rivalidade entre as duas superpotências situa-se na Europa". Assombroso! Porém por que não se situa em algum outro ponto do mundo onde a União Soviética procura a expansão, como na Ásia, na África, na Austrália ou na América Latina, mas precisamente na Europa?
Os "teóricos" chineses não o explicam. Seu "argumento" é este: o rival principal dos Estados Unidos é a União Soviética. Essas duas superpotências, das quais uma quer o status quo e a outra a expansão, desencadearão a guerra, tal como ocorreu no tempo de Hitler, na Europa. Também Hitler desejava a expansão, o domínio do mundo, mas para consegui-lo tinha primeiro de vencer a França, a Inglaterra e a União Soviética. Por isso Hitler iniciou a guerra na Europa e não em outra parte. Mais adiante os revisionistas chineses argumentam que Stálin apoiou-se na Inglaterra e nos Estados Unidos. Então - concluem os chineses - por que não nos apoiaríamos nos Estados Unidos? Mas eles esquecem, conforme explicamos anteriormente, que a União Soviética ligou-se à Inglaterra e aos Estados Unidos depois e não antes de ser atacada pela Alemanha.
Quando a Alemanha de Guilherme II atacou a França e a Inglaterra, os chefes da II Internacional preconizaram a "defesa da pátria burguesa". Tanto os socialistas alemães como os franceses caíram nessa posição. Sabe-se como Lênin condenou essa atitude e o que disse contra as guerras imperialistas. Agora, ao aconselhar a união dos povos europeus com o imperialismo em nome da defesa da independência nacional, os revisionistas chineses atuam tal qual os partidários da II Internacional. Contrariando as teses de Lênin, eles instigam uma futura guerra nuclear que as duas superpotências buscam desencadear e fazem apelos "patrióticos" aos povos e ao proletariado da Europa Ocidental para que deixem de lado as "miudezas" com a burguesia (a opressão, a fome, os assassinatos, o desemprego), não ameacem seu poder, unam-se à OTAN, à "Europa Unida", ao Mercado Comum da grande burguesia e dos consórcios europeus e combatam apenas a União Soviética, para que se tornem disciplinados soldados da burguesia. Nem a II Internacional poderia fazer melhor.
Mas o que a direção chinesa aconselha aos povos da União Soviética e dos demais países revisionistas do Tratado de Varsóvia, do Comecon? Nada! Em geral ela silencia e nem faz caso desses povos. De vez em quando concita as camarilhas revisionistas que dominam esses paises a escapar da União Soviética para unir-se à América do Norte. Na realidade, diz a esses povos: silenciem, submetam-se e tornem-se carne de canhão para a camarilha sanguinária do Kremlin! Essa linha da direção revisionista da China é antiproletária, belicista.
Tudo isso mostra que os dirigentes chineses confundem intencionalmente a situação interna Encaram-na segundo seu interesse de tornar a China superpotência e não segundo o interesse da revolução, consideram-na no interesse de seu Estado imperialista e não no interesse da libertação dos povos, enxergam-na sob o prisma da extinção da revolução em seu país e das revoluções nos demais países e não sob o prisma da organização e intensificação da luta do proletariado e dos povos contra as duas superpotências bem como contra os opressores burgueses capitalistas dos demais países, vêem-na sob a ótica do estímulo e não da resistência à guerra imperialista mundial.
A caminhada da China para tornar-se superpotência terá graves conseqüências, em primeiro lugar para a própria China e o povo chinês.
A análise marxista-leninista de sua política leva à conclusão de que a direção chinesa está conduzindo seu país para um beco sem saída. Ela pensa que ao servir o imperialismo norte-americano e o capitalismo mundial conseguirá algumas vantagens para si própria, mas tais vantagens são duvidosas e custarão caro à China. Trarão a catástrofe para o país e naturalmente também terão sensíveis repercussões em outros países.
A política da China para tornar-se superpotência, inspirada numa ideologia antimarxista, está se desmascarando e desmascarar-se-á ainda mais aos olhos de todos os povos, mas sobretudo dos povos do chamado terceiro mundo. Os povos compreendem as metas da política de cada Estado, seja ele o que for, socialista, revisionista, capitalista ou imperialista. Vêem e compreendem que, apesar de posar de participante do "terceiro mundo", a China não tem as mesmas aspirações e objetivos que os animam. Observam que ela segue uma política social-imperialista. É compreensível que essa política impopular, uma política que ajuda a opressão social e nacional, seja inaceitável para os povos. Ela só interessa às camarilhas reacionárias, aos que dominam e oprimem os povos.
A China apóia e fornece armas à Somália, que está em guerra com a Etiópia empurrada pelos Estados Unidos. Enquanto isso, a União Soviética ajuda a Etiópia a engalfinhar-se com a Somália. Também ocorre o mesmo na Eritréia. Assim, a China toma um partido, a União Soviética o outro. Se a China é vista com bons olhos na Somália, é pelos que estão no poder, não pelo povo somali que está sendo morto. Ela também não é vista com bons olhos pela direção da Etiópia, apoiada pelos soviéticos, nem tampouco pelo povo etíope, que foi insuflado contra os somalis, os quais supostamente procuraram ocupar a Etiópia. Dessa forma, a China não tem qualquer influência nem na Etiópia nem na Somália.
Mas ela também não é vista com bons olhos na Argélia. Esta apóia a frente "Polisário", enquanto a China toma o partido da Mauritânia e do Marrocos, ou seja, do imperialismo norte-americano.
A política externa da China segue uma orientação pretensamente pró-povos árabes. Mas essa política consiste unicamente em fazer os povos árabes se unirem contra o social-imperialismo Soviético. Compreende-se por si só que a China auxilia qualquer aproximação dos árabes, em primeiro lugar com os Estados Unidos.
No que diz respeito a Israel, a direção chinesa fala muito contra ele. Mas na prática, por sua estratégia, é pró-Israel. É o que os povos árabes e sobretudo o palestino vêm constatando.
Nos países da Ásia pode-se dizer que a China não tem uma influência visível e estável.
A China não possui uma amizade sincera e estreita com os países vizinhos, para não falar dos outros que estão mais distantes. A política chinesa não é nem pode ser justa, uma vez que não é marxista-leninista. Com base em tal política, ela não pode estabelecer uma amizade sincera com o Vietnã, a Coréia, o Camboja, o Laos, a Tailândia, etc. A China finge desejar a amizade desses países, mas na prática existem entre ela e estes últimos contradições quanto a questões políticas, territoriais e econômicas.
Com a política que segue, a China já entrou em conflito aberto com o Vietnã. Vêm ocorrendo graves incidentes na fronteira entre os dois países. Os social-imperialistas chineses interferiram profundamente nos assuntos internos daquele país, inflaram o conflito entre o Camboja e o Vietnã em função de seus próprios fins expansionistas. Quando a direção chinesa comporta-se dessa forma com o Vietnã, que até ontem considerava como país irmão e amigo íntimo, o que podem pensar os países da Ásia sobre a política chinesa? Podem confiar nela?
Falar da influência da China nos países da América Latina seria perda de tempo. Ali ela não tem influência, nem política, nem ideológica, nem econômica. Toda a influência da China reside na amizade com um certo Pinochet, um fascista sanguinário e furioso. Essa atitude da China indignou não só os povos da América Latina, mas também a opinião pública mundial. Todos vêem que a direção chinesa é favorável aos governantes opressores, aos ditadores e generais que dominam os povos, é favorável ao imperialismo norte-americano que cravou suas garras no dorso dos povos desse Continente. Assim, pode-se dizer que a influência da China na América Latina é insignificante, fraca e inconsistente.
Além de não contar com a simpatia e o apoio dos povos, a política dos dirigentes chineses fará com que a China se isole cada vez mais dos Estados progressistas, do proletariado mundial. Não pode haver povo, não se consegue encontrar proletariado e revolucionários que apóiem a política da China, quando vêem ao lado dos dirigentes chineses ex-generais nazistas alemães, ex-generais e almirantes militaristas japoneses, generais fascistas portugueses, etc., etc., tal como ocorreu na tribuna da praça Tien An-men no dia da festa nacional de 10 de outubro de 1977.
A China não pode avançar no caminho de sua transformação numa superpotência sem intensificar a exploração das amplas massas trabalhadoras internamente. Os Estados Unidos e os demais Estados capitalistas Procurarão auferir superlucros com o capital que investirão ali, pressionarão inclusive em favor de transformações rápidas e radicais da base e da superestrutura da sociedade chinesa no sentido capitalista. O incremento da exploração das massas de muitos milhões para manter a burguesia chinesa e seu gigantesco aparelho burocrático, para fazer frente ao resgate dos créditos e juros dos capitalistas estrangeiros levará inevitavelmente ao surgimento de profundas contradições entre o proletariado e o campesinato chinês, de um lado, e os opressores burguês-revisionistas de outro. Isso colocará estes últimos perante as massas trabalhadoras de seu próprio país, o que não pode deixar de conduzir a agudos conflitos e explosões revolucionárias na China.
Ao analisar a estratégia global do imperialismo norte-americano e do social-imperialismo soviético para dominar o mundo, ao analisar o surgimento e desenvolvimento das diferentes variantes do revisionismo contemporâneo, bem como o combate de todos esses inimigos ao marxismo-leninismo e à revolução, também falamos inicialmente sobre o lugar e a estratégia do revisionismo chinês.
A própria China qualifica de marxista-leninista a linha política que segue, mas a realidade mostra o contrário. É precisamente essa realidade que nós, marxista-leninistas, devemos desmascarar. Não devemos permitir que as teorias revisionistas chinesas passem por teorias marxistas, não devemos admitir que a China, no caminho que está trilhando, finja lutar pela revolução quando na realidade opõe-se a ela.
Com a política que a China segue, está se tornando ainda mais claro que ela busca reforçar as posições do capitalismo em seu interior e instaurar sua hegemonia no mundo, tornar-se uma grande potência imperialista, para que também ela ocupe, como se diz, "o lugar que lhe cabe".
A história mostra que qualquer grande país capitalista visa tornar-se uma grande potência mundial, conseguir adiantar-se às demais grandes potências, concorrer com elas pelo domínio mundial. Diversos têm sido os caminhos seguidos pelos grandes Estados burgueses para transformarem-se em potências imperialistas, caminhos condicionados por determinadas circunstâncias históricas e geográficas, pelo desenvolvimento das forças produtivas, etc. Os Estados Unidos seguiram uma trajetória distinta das velhas potências européias, como a Inglaterra, França e Alemanha. Estas últimas se formaram enquanto tal com base em ocupações coloniais.
Após a II Guerra Mundial os Estados Unidos permaneceram a maior potência capitalista. Com base no grande potencial econômico e militar de que dispunham e no desenvolvimento do neocolonialismo, transformaram-se numa superpotência imperialista. Mas não passou muito tempo e somou-se a eles outra superpotência, a União Soviética, que se transformou em superpotência imperialista após a morte de Stálin e depois que a direção kruschoviana traiu o marxismo-leninismo. A União Soviética aproveitou com esse fim o grande potencial econômico, técnico e militar erigido pelo socialismo.
Encontramo-nos agora diante dos esforços de outro grande Estado para tornar-se superpotência, da China hoje, pois também ela trilha rapidamente o caminho o capitalismo. Mas a China carece de colônias, carece de uma grande indústria desenvolvida, carece em geral de uma economia forte, de um grande potencial termo-nuclear no nível possuído pelas duas outras superpotências imperialistas.
Para tornar-se superpotência é absolutamente necessário ter uma economia desenvolvida, um exército armado com bombas atômicas, é necessário conquistar mercados e zonas de influência, investir capitais em outros países, etc. A China procura preencher o quanto antes esses requisitos. Isso foi dito no discurso de Chu Enlai à Assembléia Popular em 1975 e repetido no XI Congresso do Partido Comunista da China, onde se proclamou que antes do final deste século a China tornar-se-ia um país poderoso e moderno, visando alcançar os Estados Unidos e a União Soviética. Agora todo esse plano foi ampliado e precisado naquilo que se denominou política das "quatro modernizações".
Mas qual o caminho escolhido pela China para tornar-se também uma superpotência? Atualmente as colônias e mercados do mundo estão ocupados por outros. É impossível criar com as próprias forças, em 20 anos, como pretendem os chineses, um potencial econômico e militar equivalente ao dos norte-americanos e soviéticos.
Nessas condições, a China terá de passar por duas fases principais para tornar-se superpotência: primeiro solicitar créditos e investimentos do imperialismo norte americano e dos demais países capitalistas desenvolvidos, comprar tecnologia moderna para aproveitar seus recursos, grande parte dos quais passará aos credores a titulo de dividendos. E segundo, investir a mais-valia conseguida à custa do povo chinês em Estados de diferentes continentes, tal como os imperialistas norte-americanos e os social-imperialistas soviéticos fazem atualmente.
Os esforços da China para tornar-se superpotência concentram-se em primeiro lugar na escolha dos aliados e na criação de alianças. Existem hoje no mundo duas superpotências o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético. Os dirigentes chineses julgaram que devem apoiar-se no imperialismo norte-americano, no qual depositam maiores esperanças de ajuda nos campos da economia, das finanças, da tecnologia, da organização, mas também sob o aspecto militar. O potencial econômico-militar dos Estados Unidos é realmente superior ao do social-imperialismo soviético. Os revisionistas chineses o compreendem muito bem, em que pese dizerem que a América está em decadência. No caminho que estão trilhando, eles não podem se apoiar num parceiro débil, do qual não possam se beneficiar grandemente. Escolheram os Estados Unidos como aliados precisamente porque estes são poderosos.
A aliança com os Estados Unidos, o entendimento da política chinesa com a do imperialismo norte-americano, tem também outros objetivos. Traz consigo uma ameaça para o social-imperialismo soviético, o que se constata na ensurdecedora propaganda e na febril atividade dos dirigentes chineses contra a União Soviética. Ao seguir essa política, a China dá a entender à União Soviética revisionista que sua ligação com os Estados Unidos constitui uma força colossal contra ela no caso de eclosão de uma guerra imperialista
A atual política chinesa visa igualmente estabelecer amizade e alianças com todos os países capitalistas desenvolvidos, dos quais ela procura aproveitar se política e economicamente. A China deseja e procura reforçar a aliança norte-americana com os países do "segundo mundo", como ela os chama. Estimula sua união, ou melhor, sua submissão ao imperialismo norte-americano, que considera como seu maior parceiro.
Isso explica todos os estreitos vínculos que o governo chinês procura estabelecer com todos os Estados capitalistas ricos, com o Japão, a Alemanha Ocidental, a Inglaterra, a França, etc.; isso explica as muitas visitas de delegações governamentais econômicas, culturais e científicas à China procedentes dos Estados Unidos e de todos os demais países capitalistas desenvolvidos, sejam eles repúblicas ou monarquias, assim como as visitas de delegações chinesas a esses países. Isso explica porque a China manifesta-se sistematicamente, em todas as ocasiões, em favor dos Estados Unidos e dos demais Estados capitalistas industrializados, procurando ressaltar qualquer escrito, pronunciamento ou ação desses Estados contra o social-imperialismo soviético.
Essa política dos dirigentes chineses não poderia deixar de chamar a atenção e angariar o devido apoio dos Estados Unidos. Sabe-se que durante a II Guerra Mundial existiam dois lobbies no Departamento de Estado norte-americano quanto à questão chinesa: um pra Chiang Kai-chek e o outro pró Mao Tsetung. Naturalmente, o lobby de Chiang Kai-chek triunfou então no Departamento de Estado e no Senado norte-americano, enquanto que o lobby de Mao Tsetung vencia no terreno no Continente, na China. Entre os inspiradores desse segundo lobby estavam Marshall e Vandemayer, Edgar Snow e outros, que tornaram-se amigos e conselheiros dos chineses, promotores e inspiradores de toda sorte de organismos na nova China. Atualmente esses velhos vínculos estão se renovando, se reforçando, se tornando mais sólidos e concretos. Qualquer um enxerga agora que a China e os Estados Unidos estão se aproximando cada vez mais. Pouco tempo atrás um dos jornais norte-americanos mais bem informados, o "Washington Post", afirmava: "Há agora um consenso norte-americano, apoiado inclusive pela direita, pelos que nutrem pouca simpatia por Pequim. Segundo este consenso, apesar do que tenha ocorrido no passado não há mais razão para se considerar a China como uma ameaça aos Estados Unidos. Além de Taiwan, há poucas coisas quanto às quais não há acordo entre os dois governos. Ambas as partes aceitaram, de fato, adiar a questão de Taiwan com o objetivo de beneficiar-se em outros campos".
O problema de Taiwan, levantado nas relações entre a China e os Estados Unidos, tornou-se algo formal. A China já não insiste no assunto. Absolutamente não se incomoda com Hong-Kong e nem se molesta por Macau permanecer ainda sob domínio dos portugueses. O governo chinês não aceitou a oferta do novo governo português de devolver à China esta colônia, tendo dito que "não se devolve presentes". A existência de tais colônias e algo anacrônico, mas a política pragmática dos dirigentes chineses não se importa com isso. E já que Hong-Kong e Macau permanecem como colônias, por que não ocorrer o mesmo com Taiwan? Ao que parece a China tem grande interesse em que Taiwan continue como está. Além das relações abertas, processada à luz do dia, interessa-lhe também desenvolver através dessas três portas um tráfico disfarçado com os imperialistas norte-americanos, com os imperialistas ingleses, japoneses, etc. Portanto as lorotas que Deng Xiaoping e Li Xiannian tentam impingir, de que as relações sino-americanas dependem da atitude dos Estados Unidos para com Taiwan, não passam de uma cortina de fumaça, a fim de ocultar o caminho de aproximação com os Estados Unidos trilhado pela China com vistas a transformar-se em superpotência.
Carter declarou que os Estados Unidos estabelecerão relações diplomáticas com a China. No que toca a Taiwan, adotarão a atitude do Japão, ou seja, romperão formalmente as relações diplomáticas com a ilha, sem interromper as relações econômicas e culturais e, por baixo destas, também as militares. Na realidade, as relações militares dos Estados Unidos com Taiwan interessam à China, que deseja que os Estados Unidos mantenham tropas em Taiwan, no Japão, na Coréia do Sul e no Oceano Índico, julgando que isso a beneficia, já que constitui um contrapeso para a União Soviética.
Todas essas atitudes vinculam-se ao caminho escolhido pela direção chinesa para tornar a China uma superpotência, procurando desenvolver a economia e elevar o potencial militar através de créditos e investimentos dos Estados Unidos e de outros grandes países capitalistas. Ela justifica esse caminho pretendendo aplicar uma política justa, a linha "marxista" de Mao Tsetung, segundo o qual "a China deve aproveitar os grandes êxitos do mundo, as patentes, as novas tecnologias, colocando o que é estrangeiro a serviço do desenvolvimento interno", etc. Os artigos do "Renmin Ribao" e os discursos dos dirigentes chineses estão repletos de slogans do gênero. Segundo a concepção chinesa, beneficiar-se das invenções e realizações industriais de outros Estados significa contrair créditos e aceitar investimentos dos Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França, Inglaterra e demais países capitalistas que a China corteja.
Os dirigentes chineses fizeram suas as teorias revisionistas segundo as quais grandes países, como a China, que têm muitos recursos, podem contrair créditos junto ao imperialismo norte-americano ou a qualquer Estado, truste ou banco capitalista poderoso, já que teriam condições de saldar as dívidas. Os revisionistas iugoslavos saíram em defesa desse ponto de vista, fazendo publicidade de sua experiência de "construção do socialismo específico" com a ajuda da oligarquia financeira mundial e especialmente do capital norte-americano, dão o exemplo e encorajam a China a seguir essa trilha sem vacilações.
Os grandes países podem saldar os créditos que contraem, mas os investimentos imperialistas nesses grandes Estados, como na União Soviética revisionista, na China ou qualquer outro, não podem deixar de acarretar serias conseqüências neocolonialistas. As riquezas e o suor dos povos passam a ser explorados também em favor dos consórcios e monopólios capitalistas estrangeiros. Os Imperialistas norte-americanos assim como os Estados capitalistas desenvolvidos da Europa Ocidental ou o Japão, que fazem investimentos na China e países revisionistas, objetivam encravar-se ali, visam enlaçar seus consórcios numa estreita colaboração com os principais trustes e ramos industriais destes países.
O investimento de capitais dos Estados imperialistas na China não é um problema tão simples como os revisionistas procuram aparentar, ao considerar essa penetração de capitais como inofensiva, pois não se processaria através de acordos interestatais (embora ultimamente altos dirigentes chineses tenham declarado que aceitarão créditos externos governamentais) e sim através de bancos e companhias privadas, sem complicações e interesses políticos O endividamento de qualquer país, grande ou pequeno, junto a esse ou aquele imperialismo acarreta sempre perigos inevitáveis para sua liberdade, independência e soberania, mais ainda no caso de países economicamente pobres como a China. Um país verdadeiramente socialista não precisa endividar-se. As fontes do desenvolvimento econômico de um país encontram-se nele próprio, em seus recursos, em sua acumulação interna e na força criadora de seu povo. O exemplo da Albânia, um pequeno país, deixa muito claro de quantos meios, fontes e aptidões inesgotáveis dispõe um pais socialista para desenvolver-se. Os meios e fontes de um país grande são muito maiores, quando ele trilha consequentemente o caminho do marxismo-leninismo.
A abertura do mercado chinês para o imperialismo norte-americano e as grandes empresas estadunidenses e outras ocidentais foi acolhida com incontida alegria pelos imperialistas dos Estados Unidos e por toda a burguesia internacional. As multinacionais, os industriais norte-americanos conhecem bem a economia e as grandes riquezas da China; por isso fazem o que podem para edificar ali sua rede econômica, constituir empresas mistas e auferir grandes lucros. Não só as grandes empresas norte-americanas, mas também empresas japonesas, alemãs e de outros países capitalistas desenvolvidos estão atuando dessa forma na China.
A China concluiu agora um contrato com o Japão para fornecer-lhe até dez milhões de toneladas de petróleo por ano. Representantes da ENI italiana foram à China com uma grande equipe a fim de também conseguir licença para prospectar petróleo, mas já encontraram ali grandes grupos de companhias petrolíferas norte-americanas, que haviam se entendido com a China quanto à extração e exploração conjuntas do óleo. A China também vem fazendo o mesmo em outros setores da mineração, como o do ferro e de diferentes minérios que podem ser encontrados em grande quantidade no seu território. Os magnatas alemães do carvão encontram-se agora na China, onde concluíram um contrato de algumas dezenas de bilhões de marcos. Ministros chineses percorrem o Japão, a América do Norte e a Europa de ponta a ponta para conseguir créditos, adquirir novos equipamentos tecnológicos, comprar modernas armas, estabelecer relações técnico-científicas, etc. Todas as portas das instituições e empresas chinesas estão aberas para os empresários de Tóquio, da Wall Street e do Mercado Comum Europeu, que se afanam para ver quem chega primeiro a Pequim, para açambarcar os grandes projetos de "modernização" que o governo chinês oferece. Desta forma, a China também vai entrando círculo infernal da absorção imperialista, do insaciável apetite imperialista de recursos do subsolo e de matérias primas, de exploração da mão-de-obra chinesa.
Sabe-se que o capitalista não concede ajuda a ninguém sem ver, em primeiro lugar, seu próprio interesse econômico, político e ideológico. Não se trata apenas da taxa de lucro que ele recebe. O país capitalista que concede créditos introduz juntamente com eles seu modo de vida, sua maneira de pensar capitalista cria bases no país "ajudado" e espalha-se sub-repticiamente, como uma mancha de óleo, estende sua teia de aranha; e esta aranha permanece sempre ali para devorar todas as moscas que caiam em suas malhas, como ocorreu na Iugoslávia, como ocorre atualmente na União Soviética. A China terá a mesma sorte.
Em conseqüência a China também fará concessões em questões políticas e ideológicas, como já está fazendo, enquanto o mercado chinês tornar-se á um débouché (vertedouro - em francês no original) de grande importância para o imperialismo norte-americano e para as demais potências capitalistas industrializadas.
Os créditos e investimentos norte-americanos, alemães-ocidentais japoneses, etc. na China afetarão inevitavelmente, em maior ou menor escala, sua independência e soberania Tais créditos tornam dependente qualquer Estado que os contraia, pois o credor impõe-lhe sua política. Portanto, qualquer Estado, grande ou pequeno que se introduza nas engrenagens do imperialismo, mutila ou perde a liberdade política, a independência e a soberania. Essa situação de mutilação da soberania verificou-se inclusive na União Soviética que, quando enveredou pelo caminho da restauração do capitalismo, era econômica e militarmente muito mais poderosa do que a China de hoje, que ingressa no mesmo caminho.
Evidentemente, os países pequenos que se introduzem nas engrenagens do imperialismo perdem a liberdade e a independência mais depressa do que países grandes como a China e a União Soviética, nos quais esse processo pode ser mais lento, não só porque têm um potencial econômico e militar superior, mas também porque, apoiados nesse potencial, lutam para manter mercados e ocupar outros novos, para criar e ampliar zonas de influência de forma a pressionar-se mutuamente e mesmo a entrar em guerra, quando não encontram outra saída. Mas nem tudo isso os salva dos grilhões dos créditos e investimentos que acorrentam seus pés. Os créditos e seus juros devem ser pagos. Mas quando não se está em condições de saldá-los contraem-se novas dívidas. As dívidas levam a dívidas, o Capitalista exige proventos e, quando não há como pagá-los, ele encosta o devedor na parede. As empresas monopolistas norte-americanas, por exemplo, que ditam política de seu próprio governo, obrigam-no a defender a qualquer preço seus capitais, a declarar inclusive a guerra se for necessário para resguardá-los.
Todo o ensurdecedor alarido dos dirigentes chineses a respeito do enfraquecimento do imperialismo norte-americano cai por terra quando se observa o zelo que eles mostram em apoiar-se nesse imperialismo, nos capitalistas dos Estados Unidos, para desenvolver a economia de seu país. As declarações dos dirigentes chineses sobre o suposto debilitamento do imperialismo norte-americano são apenas um blefe, assim como é um blefe a declaração sobre o apoio nas próprias forças. Os revisionistas chineses pensam o contrário do que dizem, qualquer um pode constatá-lo em sua prática.
Os jornais oficiais da China expressam frequentemente inquietude com os créditos que a União Soviética social-imperialista contrai junto aos bancos norte-americanos, alemães-ocidentais, japoneses, etc.. Advertem os Estados Unidos e os demais países capitalistas desenvolvidos no sentido de que tenham em mente que a ajuda tecnológica e os créditos fornecidos à União Soviética são empregados no desenvolvimento e fortalecimento do potencial econômico e militar desta, de que a ajuda e os créditos aumentam o perigo ameaçador proveniente do social-imperialismo, o qual, segundo dizem os dirigentes chineses, ocupa hoje o lugar do, III Reich. Por isso, conclama-os a suspender esses créditos o quanto antes. A imprensa chinesa emprega a mesma linguagem de Strauss, o conhecido nazista e revanchista alemão-ocidental.
Não é difícil descobrir o verdadeiro sentido da "inquietude" dos dirigentes chineses com os créditos contraídos pela União Soviética. Naturalmente eles não se importam com a natureza capitalista dos créditos nem com o perigo que apresentam para a soberania do Estado soviético. Mas desejam dizer aos magnatas do capital norte-americano e ao governo dos Estados Unidos, aos capitalistas e governos dos demais países imperialistas que os créditos e a ajuda deveriam ser concedidos não à União Soviética, mas à China, que não lhes oferece qualquer perigo, apenas lucros.
Este é um lado do plano da China para tornar-se superpotência. O outro são os esforços para dominar os países menos desenvolvidos do mundo, para converter-se na liderança daquilo que a China chama "terceiro mundo".
O grupo que domina atualmente na China dá muita ênfase ao "terceiro mundo", incluindo-se intencional e premeditadamente nesse mundo. O "terceiro mundo" dos revisionistas chineses tem um objetivo político bastante preciso. É parte da estratégia que visa transformar o quanto antes a China numa superpotência. A China procura reunir em torno de si todos os países do "terceiro mundo" ou "não-alinhados" ou "em desenvolvimento" para criar uma grande força que não só aumentará o poderio chinês em geral, mas também a ajudará a contrapor-se às duas outras superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, a ter um peso maior na barganha pela divisão de mercados e zonas de influência, a conquistar o status de verdadeira superpotência imperialista. A China trata de realizar seu objetivo de agrupar o maior número de Estados em torno de si sob a falsa palavra-de-ordem de que defende a libertação dos povos do neocolonialismo e a passagem ao socialismo através da luta contra o imperialismo. Esse imperialismo é algo abstrato, mas ela acentua que o imperialismo mais perigoso é o soviético.
A China lançou tal palavra-de-ordem demagógica e despida de conteúdo teórico na esperança de valer-se dela em função de seus fins hegemonistas. Visa inicialmente instaurar o domínio chinês no chamado terceiro mundo e a seguir manipular esse "mundo" de acordo com seus interesses imperialistas. Por enquanto a China procura esconder tudo isso com o renome de país socialista que adquiriu. Especula, dizendo que um país socialista não pode ter concepções escravizantes, de conduzir os demais pelo cabresto, de praticar chantagem, de combatê-los, oprimi-los e explorá-los. Emprega essa palavra-de-ordem com base no fato de que o Partido Comunista da China, criado pelo "grande" Mao Tsetung, tem a reputação de partido marxista-leninista, fiel à teoria de Marx e Lênin, que combate todos os males do sistema capitalista, a espoliação colonial, etc.
Disfarçada sob essa condição fictícia, oculta por uma expressão - "terceiro mundo" - e incluindo-se nesse "mundo" sem nenhum critério ou definição de classe, a China pensa que pode atingir mais facilmente seu objetivo estratégico de instaurar sua hegemonia sobre ele. A União Soviética empregou esse mesmo engodo para com outros países. Todos os revisionistas kruschovianos proclamam dia e noite que são "comunistas" e que seus partidos são "verdadeiros partidos marxista-leninistas". Os revisionistas soviéticos procuram instaurar sua hegemonia no mundo sob essa mesma máscara. Consequentemente, podemos dizer, que não existe qualquer diferença essencial entre a atuação chinesa e a do social-imperialismo soviético.
Todo esse desenvolvimento da política e da atuação chinesa comprova cabalmente as características do imperialismo definidas pelo marxismo-leninismo, como o domínio da oligarquia financeira que busca mercados, que procura conquistar o mundo e instaurar sua hegemonia em toda parte. Assim, a China procura penetrar nos países do "terceiro mundo" e assegurar "um lugar ao sol". Mas esse "lugar" deve ser conquistado com grandes sacrifícios.
Para se introduzir no "terceiro mundo", para ocupar mercados, é preciso capital. As classes dominantes que se encontram no poder nos países do "terceiro mundo" exigem investimentos, exigem créditos e "ajuda". Mas a China não tem condições de "ajudá-las" em grande escala, pois não possui o potencial econômico exigido. É precisamente esse potencial que ela trata de criar agora com a ajuda do imperialismo norte-americano. Nessas condições, a burguesia que domina os países do "terceiro mundo" tem claro que por enquanto não pode beneficiar-se grandemente da China, nem nos aspectos econômico e tecnológico nem no militar. Pode beneficiar-se mais do imperialismo norte-americano e do social-imperialismo soviético, dotados de grande potencial econômico, técnico e militar.
Apesar disso, como todo país que tem intenções imperialistas, a China luta e lutará ainda mais por mercados, tenta e tentará ainda mais expandir sua influência e seu domínio. Esses planos transparecem desde gora. Ela está criando seus bancos não só em Hong-Kong, onde eles já existem de há muito, mas também na Europa e em outras áreas. Combaterá especialmente para criar bancos e exportar capitais para os países do "terceiro mundo". Por enquanto ela faz muito pouco nesse campo. A "ajuda" da China reduz-se à construção de alguma fábrica de cimento, ferrovia ou hospital, pois suas possibilidades só vão até aí. Somente quando os investimentos norte-americanos, japoneses etc. na China começarem a dar os frutos que esta deseja, quer dizer, quando a economia, o comércio e a técnica militar se desenvolverem, a China será capaz de empreender uma verdadeira expansão econômica e militar em ampla escala. Mas para consegui-lo é preciso tempo.
Até então a China manobrará, como já começou a manobrar, com a política de "ajuda" e créditos sem juros ou a juros extremamente baixos, quando os soviéticos e norte-americanos exigem muito mais. Enquanto os capitais chineses não tiverem condições de arrojar-se para o exterior, a direção revisionista da China concentrará a atenção no aspecto propagandístico da parca "ajuda" e dos poucos créditos que concede a países em desenvolvimento, assinalando seu "caráter internacionalista" e "desinteressado", acompanhando-os com a palavra-de-ordem do "apoio nas próprias forças" para libertar e construir o país.
Quanto mais a China desenvolver-se econômica e militarmente, mais procurará introduzir-se e dominar nos países pequenos e menos desenvolvidos, através da exportação de seus capitais, e então não pedirá mais juros de 1 ou 2% para seus créditos, mas atuará como todos os outros.
Porém nenhum desses planos e esforços pode realizar-se facilmente. Os países imperialistas e capitalistas desenvolvidos, que têm influência no chamado terceiro mundo, não permitem que a China ocupe, sem esforço, os mercados que eles conquistaram de há muito com guerras de rapina. Eles não só se aferram às velhas posições como procuram de todas as maneiras ocupar outras novas e impedem que a China ponha a mão nesses países.
Tanto quando se encontra em dificuldades como quando está em florescimento, o imperialismo é implacável para com qualquer parceiro. Para conseguir maiores lucros, ele pode às vezes ser constrangido a fazer alguma concessão, mas em geral trata de reforçar os grilhões, em relação não só aos países débeis mas também aos desenvolvidos, como é o caso dos Estados capitalistas industrializados. Os Estados Unidos, por exemplo, sempre seguiram essa política em relação a seus aliados capitalistas quando estes se depararam com dificuldades nas guerras imperialistas que eclodiram entre eles. Mesmo depois de tais guerras, quando esses países procuravam reerguer-se, o imperialismo norte-americano empenhou todas as forças para impedi-los de introduzirem-se nos demais países onde havia instaurado seu domínio. Dessa forma, ao "ajudar" no após-guerra a Inglaterra e a França, que saíram debilitadas do conflito, os Estados Unidos penetraram a fundo nos mercados da libra, do franco, etc. Os monopólios e cartéis americanos da metalurgia, da química, dos transportes e de muitos outros ramos vitais ao desenvolvimento do capitalismo penetraram avassaladoramente nos cartéis da Inglaterra, da França, etc., colocando tais países na dependência do imperialismo estadunidense. Esse imperialismo selvagem e insaciável, assim como qualquer outro, não pode atuar distintamente na China.
Levando em conta as dificuldades com que se defronta para penetrar econômica e militarmente nos países do "terceiro mundo", a China pensa poder assegurar a hegemonia implantando sua influência política e ideológica. Pensa alcançá-la trabalhando em três sentidos: não combater o imperialismo norte-americano nem as camarilhas dominantes nos países capitalistas, pelo contrário, aliar-se a este imperialismo e a estas camarilhas; combater o social-imperialismo soviético, que está em suas fronteiras, para debilitar e desbaratar suas bases na Ásia, na África e na América Latina; enganar o proletariado e os povos tão sofridos desses Continentes por meio da demagogia e de manobras pseudo-revolucionárias e pseudo-socialistas, solapando qualquer movimento libertador revolucionário.
O imperialismo norte-americano e as demais potências imperialistas compreendem perfeitamente esses intentos da China. Os países do "terceiro mundo" também o compreendem e por isso duvidam, vêem que a China está blefando com eles, que seu objetivo não é apoiá-los e ajudá-los, mas tornar-se ela própria uma superpotência. A maioria dos dirigentes no poder nos países do Chamado terceiro mundo possuem antigas e estreitas ligações com o imperialismo norte-americano ou com potências capitalistas desenvolvidas Inglaterra, a França, a Alemanha, a Bélgica, o Japão, etc.. Por isso o flerte da China com o "terceiro mundo" não causa dores de cabeça aos Estados imperialistas e capitalistas desenvolvidos.
Os esforços da China para insinuar-se no "terceiro mundo" por meio de sua política e ideologia do chamado pensamento Mao Tsetung também não podem ter êxito porque sua ideologia e sua linha política são caóticas. A linha política da China é confusa, é uma linha pragmática que vacila e muda segundo as conjunturas e interesses do momento. As classes dominantes dos Estados do "terceiro mundo" não temem essa ideologia, pois compreendem que ela não postula a revolução e a verdadeira libertação nacional dos povos. Para exercer mais facilmente sua opressão e exploração sobre o povo, a burguesia desses países criou seus próprios partidos, rotulados das mais diversas formas. Estreitamente ligados aos capitais estrangeiros investidos nos Estados do chamado terceiro mundo, esses partidos não têm dificuldades em combater e desmascarar a linha chinesa. Por isso os dirigentes revisionistas chineses optaram pela via dos sorrisos aos partidos desses países e procuram a todo custo e a qualquer momento tratá-los de forma "doce como mel".
Com o plano de dominar o "terceiro mundo", a China trata de canalizar na medida do possível o movimento das massas trabalhadoras desse "mundo" em proveito próprio. Mas atualmente os povos oprimidos, com o proletariado à frente, já não se encontram mais mesma situação do fim do século XIX ou do início do século XX. Resistem a qualquer política hegemonista e à submissão às grandes potências imperialistas sejam elas de velho ou de novo tipo, a norte-americana a soviética ou a chinesa. Hoje as amplas massas dos povos do mundo em geral despertaram e de uma ou de forma conseguiram conquistar através de sua luta certa consciência para defender seus direitos econômicos e políticos. Os Povos do chamado terceiro mundo não podem deixar de ver que a China não trabalha para levar as idéias da revolução e da emancipação nacional aos seus países, mas para sufocar a revolução que impede a penetração da influência chinesa. A orientação chinesa de aliança com os Estados Unidos e outros países neocolonialistas desmascara igualmente o social-imperialismo chinês aos olhos dos povos.
A China não pode fazer uma propaganda positiva e revolucionária nos países do "terceiro mundo" inclusive porque entraria em conflito com a superpotência da qual procura beneficiar-se com os capitais que esta possa investir na China e com sua tecnologia avançada. A China não pode fazer tal propaganda igualmente porque a revolução derrubaria precisamente as camarilhas reacionárias dominantes em alguns países do chamado terceiro mundo que ela apóia e ajuda a sustentar no poder.
O grande afã dos dirigentes chineses em transformar o quanto antes seu país numa superpotência e instaurar sua hegemonia em toda parte, sobretudo no chamado terceiro mundo, impulsionou-os a basear sua estratégia e política externa na instigação da guerra imperialista. Os dirigentes chineses desejam veementemente um choque frontal entre os Estados Unidos e a União Soviética na Europa, em que a China, a distância, aqueceria as mãos com o incêndio atômico que destruiria seus dois principais rivais e do qual sairia como única e todo-poderosa dominadora do mundo.
Até que se sinta bastante forte para concorrer com as outras superpotências, até conquistar o "merecido posto" de superpotência, a China buscará paz para si própria e guerra para os outros. As indisfarçadas manobras diplomáticas dos revisionistas chineses para incitar a guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética, de forma que eles próprios fiquem de lado, ocupando-se das "modernizações", vinculam-se à sua atual necessidade de paz. Não foi fortuita a declaração de Deng Xiaoping de que não haverá guerra durante vinte anos. Com isso ele queria dizer às superpotências e aos demais países imperialistas que não tivessem medo da China durante esses vinte anos. Ao mesmo tempo, os dirigentes chineses estimulam uma guerra entre as superpotências na Europa, longe da China, que ficaria a distância de seus riscos e implicações. Se isso será possível é outra coisa, mas os dirigentes chineses trabalham nesse sentido, pois julgam indispensável ter tranqüilidade durante o período que consideram necessário para alcançar o objetivo de transformar a China em superpotência.
A China propugna em altos brados o fortalecimento da "unidade européia", da "unidade dos países capitalistas desenvolvidos da Europa". Apóia tal unidade em relação a todas as questões, ufanando-se diante de velhos lobos e raposas, "ensinando-os" a reforçar sua unidade militar e econômica, a unidade organizativa estatal, etc., face ao grande perigo do social-imperialismo soviético. Mas eles não precisam das lições da China, pois têm condições de saber e sabem muito bem de onde provém o perigo.
Os países desenvolvidos do Ocidente não são ingênuos a ponto de aplicar à la lettre (ao pé da letra - em francês no original) os conselhos e satisfazer os desejos chineses. Fortalecem-se para enfrentar um eventual perigo proveniente da União Soviética, mas ao mesmo tempo fazem grandes esforços para não se indispor com ela, para não ir muito longe, nem enfurecer o "urso russo". Naturalmente isso contraria o desejo da China.
Agrada aos Estados capitalistas da Europa e aos Estados Unidos ver a China ativar suas contradições com os soviéticos, pois dizem a estes por vias transversas: "Vosso inimigo principal é a China, enquanto que nós, juntamente convosco, buscamos criar uma détente, uma coexistência pacifica, independente do que ela diga". Por outro lado, esses Estados, enquanto fingem desejarem a paz, armam-se para reforçar sua hegemonia e sua unidade militar contra a revolução, seu inimigo principal. É este o objetivo de todas as reuniões do gênero das de Helsinque e Belgrado, que se prolongam a mais não poder e assemelham-se ao Congresso de Viena após a queda de Napoleão, conhecido como o congresso dos bailes e soirées.
Os dirigentes chineses, conforme afirmou oficialmente Deng Xiaoping numa entrevista concedida ao diretor da AFP, chamam à criação de "uma ampla frente que incluirá o terceiro mundo, o segundo mundo e os Estados Unidos" para combater o social-imperialismo soviético.
A estratégia da direção revisionista da China, de incitar o Imperialismo norte-americano, a Europa Ocidental, etc., a uma guerra contra o social-imperialismo soviético, cria maiores riscos de uma guerra entre a própria China e a União Soviética do que de uma guerra entre a União Soviética e os Estados Unidos com seus aliados da OTAN.
Aquilo que a China faz ao incitar os demais à guerra, o imperialismo norte-americano, os países capitalistas desenvolvidos e todos os países dominados por camarilhas burguesas capitalistas fazem também ao açular a China e a União Soviética uma contra a outra. Portanto, há maior probabilidade de que a política dos Estados Unidos e a própria estratégia errônea da China estimulem a União Soviética a fortalecer-se ainda mais militarmente e, como potência imperialista que é, golpear primeiro a China.
Por seu lado, a China tem uma acentuada propensão para golpear a União Soviética quando sentir-se poderosa, pois possui grandes ambições territoriais quanto à Sibéria e outros territórios do Extremo Oriente. Ela levantou há tempos essas reivindicações, porém pretenderá mais ainda quando estiver preparada, quando houver posto de pé um exército equipado com toda sorte de armas. É este o sentido das palavras de Hua Guofeng ao ex-primeiro-ministro conservador inglês Eduard Heath, quando declarou: "Esperamos ver uma Europa unida e poderosa, confiamos que a Europa por sua vez espera ver uma China poderosa". Numa palavra Hua Guofeng disse à grande burguesia européia. "Vocês se fortalecem e atacam do Ocidente, enquanto nós, chineses, nos fortaleceremos e atacaremos a União Soviética, do Oriente".
A política chinesa descortinou para os Estados Unidos um caminho amplo e muito frutífero, desbravado inicialmente por Mao Tsetung, Chu Enlai e Nixon. Lançaram-se muitas pontes entre os Estados Unidos e a China, pontes camufladas, pontes que geraram efeitos e resultados. Nixon dizia: "Devemos construir uma ponte tão grande que ligue São Francisco a Pequim". O convite de Mao Tsetung e Chu Enlai a Nixon, após o escândalo de Watergate, e sua recepção por Mao tinham uma razão de ser e um objetivo determinado. Queriam dizer que a amizade com os Estados Unidos, longe de ser uma amizade conjuntural entre pessoas, é uma amizade entre países, entre a China e os Estados Unidos, em que pese o presidente que abriu esse caminho ter sido derrubado de seu posto por suas patifarias.
Agora que Carter chegou ao poder, as relações de amizade entre a China e os Estados Unidos estão encorpando. A atual atitude da China interessa grandemente aos Estados Unidos e Carter acarinha de muitas formas a estratégia chinesa.
Os Estados Unidos têm interesse em ajudar a China política, militar e economicamente, em todos os domínios, para atiçá-la contra a União Soviética. Deram à China o segredo atômico. Agora isso está claro. Deram-lhe igualmente os mais modernos computadores para servir à guerra nuclear. A China adquiriu informação completa para construir submarinos nucleares. Agora se fala aberta e oficialmente em Washington no fornecimento de modernas armas à China. Todos esses "benefícios" que os Estados Unidos oferecem à China não têm, evidentemente, o objetivo de fazer dela uma potência terrestre e naval tão grande que chegue a pôr em risco os próprios Estados Unidos, como fez o Japão na II Guerra Mundial. Não, o imperialismo norte-americano mede com cuidado a chamada ajuda que fornece a todo mundo e especialmente a que concede à China.
Dessa forma, a intenção e os febris esforços da China para tornar-se superpotência, para contrabalançar tanto os Estados Unidos como a União Soviética, não podem deixar de levar a novos atritos, a conflagrações, a guerras, que podem ter caráter local, mas também o caráter de uma guerra geral.
Toda a "teoria dos três mundos", toda a sua estratégia, as alianças e "frentes" que propõe, os objetivos que busca alcançar incitam a guerra imperialista mundial.
Nikita Kruschov e os revisionistas contemporâneos desenvolveram a famigerada teoria da "coexistência pacífica" kruschovista, que pregava a "paz social", a "competição pacífica", o "caminho pacífico" da revolução, o "mundo sem armas e sem guerras". Essa teoria visava enfraquecer a luta de classes, encobrindo e aplainando as contradições fundamentais de nossa época. Kruschov pregava a extinção das contradições entre a União Soviética e o imperialismo norte-americano em particular e das contradições entre os sistemas socialista e capitalista em geral. Sustentava a tese de que atualmente, com as transformações ocorridas no mundo, a contradição histórica entre o socialismo e o capitalismo seria superada através da competição pacífica entre ambos, uma competição econômica, político-ideológica, cultural, etc..
"Deixemos o tempo demonstrar e dizer-nos quem tem razão", afirmava Kruschov, e nessa competição os povos escolheriam livremente, "na santa paz", o regime mais conveniente. Nikita Kruschov aconselhava os povos a entregar seus recursos às superpotências e a esperar que essa famosa "competição pacífica" redundasse na garantia da liberdade, da independência, do bem-estar. Naturalmente essa política antimarxista foi desmascarada e nosso Partido foi o primeiro a abrir fogo contra ela.
O Partido Comunista da China seguiu, uma política como a de Kruschov, desde o tempo em que Mao Tsetung estava vivo. Também ele conclama ambas as partes, tanto o proletariado como a burguesia, tanto os povos como seus opressores, a cessar a luta de classes, a unir-se apenas contra o social-imperialismo soviético e a esquecer o imperialismo norte-americano.
A teoria dos "três mundos" é reacionária tal como a teoria da "coexistência pacífica" de Kruschov. Mas enquanto Kruschov e seus seguidores, porta-vozes do revisionismo contemporâneo posavam de pacifistas, Mao Tsetung, Deng Xiaoping, Hua Guofeng e companhia apresentam-se abertamente como belicistas. Querem dar à coalizão imperialista-capitalista, que inclui a própria China, as cores de uma guerra revolucionária, a configuração de uma luta pela vitória do proletariado e da libertação dos povos. Mas na realidade a "teoria" de Mao Tsetung e do Partido Comunista da China sobre os "três mundos" não conclama à revolução e sim à guerra imperialista.
O acirramento das contradições e da rivalidade entre as potências e agrupamentos imperialistas está prenhe de perigos de deflagração de conflitos armados, de guerras rapaces e escravizantes. Esta é uma conhecida tese do marxismo-leninismo, cabalmente comprovada pela história. O desenvolvimento da situação internacional em nossos dias volta a mostrar claramente sua correção.
O Partido do Trabalho da Albânia levantou muitas vezes a voz para desmascarar a ensurdecedora propaganda pacifista difundida pelas superpotências para adormecer a vigilância dos povos e países amantes da paz, para entorpecê-los com ilusões e deixá-los desprecavidos. Mais de uma vez chamou atenção para o fato de que o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo russo estão conduzindo o mundo a uma nova guerra mundial e de que a explosão dessa guerra constitui um perigo real e não imaginário. Tal perigo não pode deixar de preocupar constantemente os povos, as amplas massas trabalhadoras, as forças e países amantes da paz, os marxistas-leninistas e homens progressistas em todo o mundo, os quais tampouco podem permanecer passivos, de mãos amarradas diante dele. Mas o que se deve fazer para deter a mão dos fautores imperialistas da guerra?
A solução não pode ser o caminho da capitulação e da submissão a eles nem o do amainamento da luta contra esses belicistas. Os fatos comprovaram que os compromissos e concessões sem princípios dos revisionistas kruschovianos não tomaram o imperialismo norte-americano mais brando, mais bem comportado e pacífico, ao contrário, tornaram-no mais arrogante e aumentaram seu apetite. Mas os marxistas-leninistas não se prestam tampouco a incitar um Estado ou grupo imperialista contra outro, não apelam às guerras imperialistas, pois quem sofre com elas são os povos. O grande Lênin acentuava que nossa política não visa atiçar a guerra e sim impedir que os imperialistas se unam contra o país socialista.
"... Caso nós realmente precipitássemos os operários e camponeses na guerra - dizia ele - seria um crime. Mas toda nossa política e propaganda absolutamente não objetivam levar os povos à guerra e sim pôr-lhe fim. E a experiência foi suficiente para demonstrar que só a revolução socialista é uma saída para as eternas guerras". (V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXXI, pg. 540).
Portanto, levantar a classe operária, as amplas camadas de trabalhadores e os povos em ações revolucionárias para deter a mão dos imperialistas fautores da guerra em seus países é a única via correta. Os marxistas-leninistas sempre foram e são os mais firmes adversários das guerras injustas.
Lênin ensinou aos revolucionários comunistas que sua tarefa consiste em desbaratar os planos belicosos do imperialismo e em impedir a eclosão da guerra. Caso isso não seja alcançado, precisam mobilizar a classe operária, as massas do povo e transformar a guerra imperialista em guerra revolucionária e emancipadora.
Os imperialistas e social-imperialistas têm a guerra agressiva no sangue. Sua intenção de escravizar o mundo leva-os à guerra. Mas embora a guerra mundial imperialista seja deflagrada pelos imperialistas, é o proletariado, são os povos, os revolucionários e todas as pessoas progressistas que pagam por ela com seu sangue. É por esse motivo que os marxistas-leninistas, o proletariado e os povos do mundo são contra a guerra mundial imperialista e combatem sem tréguas para frustrar os planos dos imperialistas, para impedi-los de conduzir o mundo a uma nova carnificina.
Deriva daí que não se deve pregar a guerra imperialista, como fazem os revisionistas chineses, mas lutar contra ela. O dever dos marxistas-leninistas é erguer o proletariado e os povos do mundo na luta contra seus opressores para arrebatar-lhes o poder, os privilégios, e instaurar a ditadura do proletariado. A China não faz isso, o Partido Comunista da China não trabalha para isso. Com sua teoria revisionista, esse Partido debilita e afasta a revolução, divide as forças de vanguarda do proletariado, os partidos marxistas-leninistas que organizarão e dirigirão a revolução.
O Caminho recomendado pela direção chinesa é um engodo, é um caminho que não corresponde à nossa doutrina, o marxismo-leninismo. Pelo contrário, a linha revisionista chinesa debilita, abate o proletariado e os povos, submete-os ao risco de suportar sobre seus ombros uma guerra sanguinária, a guerra imperialista, a guerra criminosa tão odiada pelo proletariado e os povos.
Pelo mesmo motivo, a teoria de Mao Tsetung sobre os "três mundos", a atividade política do Partido Comunista da China e do Estado chinês não podem de forma alguma ser qualificadas como marxista-leninistas e revolucionárias.
Quando Kruschov preconizava a competição econômica, ideológica e política entre o socialismo e o imperialismo, os dirigentes chineses diziam-se contrários a essa tese e afirmavam que para se realizar a verdadeira coexistência pacífica era preciso combater o imperialismo, já que a "coexistência" não pode destruí-lo, não pode levar à vitória da revolução e da libertação dos povos.
Mas tais declarações ficaram no papel. Na realidade, a direção do Partido Comunista da China também era e é favorável à coexistência pacífica do tipo kruschovista. O documento que mencionamos, "Proposição Acerca da Linha Geral do Movimento Comunista Internacional", afirma: "A política de princípios é a única política justa... O que significa política de princípios? Significa que ao apresentar e elaborar qualquer política devemos permanecer nas posições proletárias, partir dos interesses fundamentais do proletariado e guiarmo-nos pela teoria e pelas teses fundamentais do marxismo leninismo". Assim declarou o Partido Comunista da China, mas o que fez e o que está fazendo agora? Fez e faz exatamente o oposto.
No documento citado e em outras ocasiões, o Partido Comunista da China declarou que "deve-se desmascarar o imperialismo norte-americano como o maior inimigo da revolução, do socialismo e dos povos de todo o mundo". Agregou entre outras coisas que "não é correto apoiar-se nem no imperialismo norte-americano nem em qualquer outro imperialismo, não é correto apoiar-se nos reacionários". Mas o Partido Comunista da China não aplicou estas teses. O Partido do Trabalho da Albânia, que se apóia fortemente nos princípios fundamentais do marxismo-leninismo, atém-se com decisão à luta contra o imperialismo e o social-imperialismo. Precisamente por esta razão a Albânia socialista opõe-se à China e o Partido do Trabalho da Albânia opõe-se ao Partido Comunista da China. Os dirigentes chineses acusam a nós, albaneses, de não fazermos "uma análise marxista-leninista da situação internacional e das contradições" e, consequentemente, não seguirmos o caminho dos chineses, de conclamar a "Europa Unida", o Mercado Comum Europeu e os proletários do mundo a se unirem aos norte-americanos contra os soviéticos. Sua conclusão é que, já que não apoiamos o imperialismo norte-americano e a "Europa Unida", etc., favoreceríamos o social-imperialismo soviético.
Essa atitude é não só revisionista, sob o manto do "anti-revisionismo", como também hostil e caluniosa com a Albânia socialista. O imperialismo norte-americano é agressivo, belicoso e belicista. Os Estados Unidos da América não querem apenas o status quo, como pretendem os chineses, mas também a expansão, do contrário não haveria motivos para terem contradições com a União Soviética. A citação de Mao mencionada por eles, de que "a América transformou-se num rato, que todo mundo persegue na rua gritando: matem-no, matem-no!", busca demonstrar que somente a União Soviética desejaria a guerra, enquanto os Estados Unidos não. Em sua condescendência para com os Estados Unidos, eles apelam a que não se golpeie o Estado que "reduziu-se à condição de um rato", mas que deve tornar-se aliado da China. Eis a estratégia antimarxista do "marxista" Mao!
Com base na análise apoiada na teoria dos "três mundos", a "estratégia" chinesa concluiu "definitivamente" que "a rivalidade entre as duas superpotências situa-se na Europa". Assombroso! Porém por que não se situa em algum outro ponto do mundo onde a União Soviética procura a expansão, como na Ásia, na África, na Austrália ou na América Latina, mas precisamente na Europa?
Os "teóricos" chineses não o explicam. Seu "argumento" é este: o rival principal dos Estados Unidos é a União Soviética. Essas duas superpotências, das quais uma quer o status quo e a outra a expansão, desencadearão a guerra, tal como ocorreu no tempo de Hitler, na Europa. Também Hitler desejava a expansão, o domínio do mundo, mas para consegui-lo tinha primeiro de vencer a França, a Inglaterra e a União Soviética. Por isso Hitler iniciou a guerra na Europa e não em outra parte. Mais adiante os revisionistas chineses argumentam que Stálin apoiou-se na Inglaterra e nos Estados Unidos. Então - concluem os chineses - por que não nos apoiaríamos nos Estados Unidos? Mas eles esquecem, conforme explicamos anteriormente, que a União Soviética ligou-se à Inglaterra e aos Estados Unidos depois e não antes de ser atacada pela Alemanha.
Quando a Alemanha de Guilherme II atacou a França e a Inglaterra, os chefes da II Internacional preconizaram a "defesa da pátria burguesa". Tanto os socialistas alemães como os franceses caíram nessa posição. Sabe-se como Lênin condenou essa atitude e o que disse contra as guerras imperialistas. Agora, ao aconselhar a união dos povos europeus com o imperialismo em nome da defesa da independência nacional, os revisionistas chineses atuam tal qual os partidários da II Internacional. Contrariando as teses de Lênin, eles instigam uma futura guerra nuclear que as duas superpotências buscam desencadear e fazem apelos "patrióticos" aos povos e ao proletariado da Europa Ocidental para que deixem de lado as "miudezas" com a burguesia (a opressão, a fome, os assassinatos, o desemprego), não ameacem seu poder, unam-se à OTAN, à "Europa Unida", ao Mercado Comum da grande burguesia e dos consórcios europeus e combatam apenas a União Soviética, para que se tornem disciplinados soldados da burguesia. Nem a II Internacional poderia fazer melhor.
Mas o que a direção chinesa aconselha aos povos da União Soviética e dos demais países revisionistas do Tratado de Varsóvia, do Comecon? Nada! Em geral ela silencia e nem faz caso desses povos. De vez em quando concita as camarilhas revisionistas que dominam esses paises a escapar da União Soviética para unir-se à América do Norte. Na realidade, diz a esses povos: silenciem, submetam-se e tornem-se carne de canhão para a camarilha sanguinária do Kremlin! Essa linha da direção revisionista da China é antiproletária, belicista.
Tudo isso mostra que os dirigentes chineses confundem intencionalmente a situação interna Encaram-na segundo seu interesse de tornar a China superpotência e não segundo o interesse da revolução, consideram-na no interesse de seu Estado imperialista e não no interesse da libertação dos povos, enxergam-na sob o prisma da extinção da revolução em seu país e das revoluções nos demais países e não sob o prisma da organização e intensificação da luta do proletariado e dos povos contra as duas superpotências bem como contra os opressores burgueses capitalistas dos demais países, vêem-na sob a ótica do estímulo e não da resistência à guerra imperialista mundial.
A caminhada da China para tornar-se superpotência terá graves conseqüências, em primeiro lugar para a própria China e o povo chinês.
A análise marxista-leninista de sua política leva à conclusão de que a direção chinesa está conduzindo seu país para um beco sem saída. Ela pensa que ao servir o imperialismo norte-americano e o capitalismo mundial conseguirá algumas vantagens para si própria, mas tais vantagens são duvidosas e custarão caro à China. Trarão a catástrofe para o país e naturalmente também terão sensíveis repercussões em outros países.
A política da China para tornar-se superpotência, inspirada numa ideologia antimarxista, está se desmascarando e desmascarar-se-á ainda mais aos olhos de todos os povos, mas sobretudo dos povos do chamado terceiro mundo. Os povos compreendem as metas da política de cada Estado, seja ele o que for, socialista, revisionista, capitalista ou imperialista. Vêem e compreendem que, apesar de posar de participante do "terceiro mundo", a China não tem as mesmas aspirações e objetivos que os animam. Observam que ela segue uma política social-imperialista. É compreensível que essa política impopular, uma política que ajuda a opressão social e nacional, seja inaceitável para os povos. Ela só interessa às camarilhas reacionárias, aos que dominam e oprimem os povos.
A China apóia e fornece armas à Somália, que está em guerra com a Etiópia empurrada pelos Estados Unidos. Enquanto isso, a União Soviética ajuda a Etiópia a engalfinhar-se com a Somália. Também ocorre o mesmo na Eritréia. Assim, a China toma um partido, a União Soviética o outro. Se a China é vista com bons olhos na Somália, é pelos que estão no poder, não pelo povo somali que está sendo morto. Ela também não é vista com bons olhos pela direção da Etiópia, apoiada pelos soviéticos, nem tampouco pelo povo etíope, que foi insuflado contra os somalis, os quais supostamente procuraram ocupar a Etiópia. Dessa forma, a China não tem qualquer influência nem na Etiópia nem na Somália.
Mas ela também não é vista com bons olhos na Argélia. Esta apóia a frente "Polisário", enquanto a China toma o partido da Mauritânia e do Marrocos, ou seja, do imperialismo norte-americano.
A política externa da China segue uma orientação pretensamente pró-povos árabes. Mas essa política consiste unicamente em fazer os povos árabes se unirem contra o social-imperialismo Soviético. Compreende-se por si só que a China auxilia qualquer aproximação dos árabes, em primeiro lugar com os Estados Unidos.
No que diz respeito a Israel, a direção chinesa fala muito contra ele. Mas na prática, por sua estratégia, é pró-Israel. É o que os povos árabes e sobretudo o palestino vêm constatando.
Nos países da Ásia pode-se dizer que a China não tem uma influência visível e estável.
A China não possui uma amizade sincera e estreita com os países vizinhos, para não falar dos outros que estão mais distantes. A política chinesa não é nem pode ser justa, uma vez que não é marxista-leninista. Com base em tal política, ela não pode estabelecer uma amizade sincera com o Vietnã, a Coréia, o Camboja, o Laos, a Tailândia, etc. A China finge desejar a amizade desses países, mas na prática existem entre ela e estes últimos contradições quanto a questões políticas, territoriais e econômicas.
Com a política que segue, a China já entrou em conflito aberto com o Vietnã. Vêm ocorrendo graves incidentes na fronteira entre os dois países. Os social-imperialistas chineses interferiram profundamente nos assuntos internos daquele país, inflaram o conflito entre o Camboja e o Vietnã em função de seus próprios fins expansionistas. Quando a direção chinesa comporta-se dessa forma com o Vietnã, que até ontem considerava como país irmão e amigo íntimo, o que podem pensar os países da Ásia sobre a política chinesa? Podem confiar nela?
Falar da influência da China nos países da América Latina seria perda de tempo. Ali ela não tem influência, nem política, nem ideológica, nem econômica. Toda a influência da China reside na amizade com um certo Pinochet, um fascista sanguinário e furioso. Essa atitude da China indignou não só os povos da América Latina, mas também a opinião pública mundial. Todos vêem que a direção chinesa é favorável aos governantes opressores, aos ditadores e generais que dominam os povos, é favorável ao imperialismo norte-americano que cravou suas garras no dorso dos povos desse Continente. Assim, pode-se dizer que a influência da China na América Latina é insignificante, fraca e inconsistente.
Além de não contar com a simpatia e o apoio dos povos, a política dos dirigentes chineses fará com que a China se isole cada vez mais dos Estados progressistas, do proletariado mundial. Não pode haver povo, não se consegue encontrar proletariado e revolucionários que apóiem a política da China, quando vêem ao lado dos dirigentes chineses ex-generais nazistas alemães, ex-generais e almirantes militaristas japoneses, generais fascistas portugueses, etc., etc., tal como ocorreu na tribuna da praça Tien An-men no dia da festa nacional de 10 de outubro de 1977.
A China não pode avançar no caminho de sua transformação numa superpotência sem intensificar a exploração das amplas massas trabalhadoras internamente. Os Estados Unidos e os demais Estados capitalistas Procurarão auferir superlucros com o capital que investirão ali, pressionarão inclusive em favor de transformações rápidas e radicais da base e da superestrutura da sociedade chinesa no sentido capitalista. O incremento da exploração das massas de muitos milhões para manter a burguesia chinesa e seu gigantesco aparelho burocrático, para fazer frente ao resgate dos créditos e juros dos capitalistas estrangeiros levará inevitavelmente ao surgimento de profundas contradições entre o proletariado e o campesinato chinês, de um lado, e os opressores burguês-revisionistas de outro. Isso colocará estes últimos perante as massas trabalhadoras de seu próprio país, o que não pode deixar de conduzir a agudos conflitos e explosões revolucionárias na China.
A Concepção dos "Três Mundos", Negação do Marxismo-Leninismo.
Enver Hoxha.
A noção da existência de três mundos ou da divisão do mundo em três baseia-se numa concepção racista e metafísica, que é engendro do capitalismo mundial e da reação.
Mas a tese racista que classifica os países em três categorias ou "mundos" não se baseia simplesmente na cor da pele. Faz sua classificação tendo como fundamento o nível de desenvolvimento econômico dos países e visa definir a "raça dos grandes senhores" de um lado e a "raça dos párias e da plebe" de outro, criar uma divisão imutável e metafísica, conforme o interesse da burguesia capitalista. Considera as diferentes nações e povos do mundo como um rebanho de carneiros, como um todo amorfo.
Os revisionistas chineses aceitam e recomendam que se preserve a "raça dos senhores" e que a "raça dos párias e da plebe" sirva-a comportada e devotadamente.
A dialética marxista-leninista nos ensina que o desenvolvimento não conhece fronteiras, que nada cessa de modificar-se. Neste processo ininterrupto de desenvolvimento rumo ao futuro verificam-se mudanças de quantidade e de qualidade. Nossa época, como qualquer outra, caracteriza-se por profundas contradições, que Marx, Engels, Lênin e Stálin definiram tão claramente. É a época do imperialismo e das revoluções proletárias e, portanto, a época das grandes transformações quantitativas e qualitativas que conduzem à revolução e à tomada do poder pela classe operária, para construir a nova sociedade socialista.
Toda a teoria de Marx baseia-se na luta de classes e no materialismo dialético e histórico. Marx demonstrou que a sociedade capitalista é uma sociedade de classes exploradoras e exploradas, que as classes só desaparecerão quando se chegar à sociedade sem classes, ao comunismo.
Vivemos atualmente a fase da derrocada do imperialismo e da vitória das revoluções proletárias. Isto significa que existem na sociedade capitalista atual duas classes principais, o proletariado e a burguesia, em luta inconciliável, de vida ou morte entre si. Qual delas vencerá? Marx e Lênin, a ciência marxista-leninista, a teoria e a prática da revolução nos demonstram e nos convencem de que, em última instância, triunfará o proletariado, que destruirá, derrubará o poder da burguesia, o imperialismo, todos os exploradores e edificará uma sociedade nova, a sociedade socialista. Ensinam-nos igualmente que, mesmo nesta nova sociedade, durante um período muito prolongado existirão classes: a classe operária e o campesinato trabalhador, que se encontram em estreita aliança; mas subsistirão também resíduos das classes derrubadas e expropriadas. Durante todo este período, tais resíduos, bem como os elementos que degeneram e se contrapõem à construção socialista, procurarão retomar o poder perdido. Portanto, também, existirá uma acirrada luta de classes no socialismo.
Os marxista-leninistas têm sempre em mente que as classes pobres, com o proletariado à frente, e as classes ricas, tendo à frente a burguesia, existem em todos os países, exceto naqueles onde a revolução triunfou e instaurou-se o sistema socialista.
Em qualquer Estado capitalista, esteja onde estiver, mesmo que seja democrático ou progressista, existem oprimidos e opressores, explorados e exploradores, antagonismos, implacável luta de classes. A diferenciação na intensidade da luta não modifica essa realidade. Essa luta atravessa ziguezagues, mas existe e não pode ser extinta. Ela existe em toda parte, existe nos Estados Unidos, entre o proletariado e a burguesia imperialista, existe igualmente na União Soviética, onde o marxismo-leninismo foi traído e criou-se uma nova classe burguês-capitalista que oprime os trabalhadores do país. Também existem classes e luta de classes no "segundo mundo", como na França, na Inglaterra, na Itália, na Alemanha Ocidental, no Japão. Existe da mesma forma no "terceiro mundo", na Índia, no Zaire, no Burundi, no Paquistão, nas Filipinas, etc.
Somente a teoria dos "três mundos" de Mao Tsetung pretende que não existem classes e luta de classes em país algum. Ela não as enxerga porque julga os países e povos segundo conceitos geopolíticos burgueses e de acordo com o nível de seu desenvolvimento econômico.
Ver o mundo dividido em três, em "primeiro mundo", "segundo mundo" e "terceiro mundo", à margem do prisma de classe, como fazem os revisionistas chineses, significa desviar-se da teoria marxista-leninista da luta de classes, significa negar a luta do proletariado contra a burguesia para passar de uma sociedade atrasada a uma nova sociedade, socialista, e mais tarde à sociedade sem classes, comunista. Dividir o mundo em três significa desconhecer as características da época atual, emperrar o avanço do proletariado e dos povos rumo à revolução e à libertação nacional, obstaculizar sua luta contra o imperialismo norte-americano, contra o social-imperialismo soviético, contra o capital e a reação, em cada país e em toda parte. A teoria dos "três mundos" prega a paz social, a conciliação de classe, procura estabelecer alianças entre inimigos inconciliáveis, entre o proletariado e a burguesia, entre os oprimidos e os opressores, entre os povos e o imperialismo. Procura prolongar a existência do velho mundo, do mundo capitalista, mantê-lo vivo precisamente buscando a extinção da luta de classes.
Mas a luta de classes, a luta do proletariado e seus aliados para tomar o poder e a luta da burguesia para mantê-lo não podem jamais ser negadas. Pode-se mover céus e terras, mas não esta verdade; ela não pode tampouco ser mudada pelas teorizações vazias sobre "mundos": "primeiro mundo", "segundo mundo", "terceiro mundo", "mundo não-alinhado" ou "vigésimo mundo". Aceitar tal divisão é deixar de lado, abandonar a teoria de Marx, Engels, Lênin e Stálin sobre as classes e a luta de classes.
Lênin e Stálin disseram após a vitória da Revolução de Outubro que existem dois mundos em nossos dias, o mundo socialista e o mundo capitalista, embora na época o socialismo tivesse sido instaurado apenas num país.
"... atualmente - dizia Lênin em 1921 - há dois mundos: o velho, o capitalismo, que se enredou, que nunca retrocederá, e o novo mundo em ascenso, que é ainda muito débil mas que crescerá, pois é invencível". (V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXXIII, pgs. 153-154).
Este critério de classe na divisão do mundo vale igualmente para a atualidade, em que pese o socialismo não ter triunfado em muitos países e a nova sociedade não ter substituído a velha sociedade burguês-capitalista. Amanhã isso sem dúvida ocorrerá.
O fato do socialismo ter sido traído na União Soviética e outros países antes socialistas não modifica uma vírgula sequer no critério leninista sobre a divisão do mundo. Hoje, como antes, existem apenas dois mundos e a luta entre eles, entre as duas classes antagônicas, entre o socialismo e o capitalismo verifica-se não só em escala nacional, mas também internacional.
Os revisionistas chineses, que não aceitam a existência do mundo socialista a pretexto de que não existe mais o campo socialista, devido à traição da União Soviética e de outros antigos países socialistas, ignoram premeditadamente uma coisa: que o aparecimento do revisionismo contemporâneo não modifica em absoluto a tendência geral da história no sentido da revolução, da derrocada do imperialismo, independente do capitalismo ainda existir. Eles ignoram ao mesmo tempo que as idéias imortais do marxismo-leninismo existem, desenvolvem-se e triunfam, que existem os partidos marxista-leninistas, existe a Albânia socialista, existem os povos que combatem por sua liberdade, independência e soberania nacional, que o proletariado mundial existe e luta.
A Comuna de Paris não triunfou, foi esmagada, mas deu um grande exemplo ao proletariado mundial. Marx disse que a experiência da Comuna demonstrou a debilidade momentânea do proletariado francês, mas preparou o proletariado de todos os países para a revolução mundial e deu uma grande lição quanto às condições necessárias para se alcançar a vitória. Marx erigiu em teoria a grande experiência dos comunards, que "tomaram o céu de assalto" e ensinou ao proletariado que ele deve romper pela violência revolucionária o aparelho de Estado burguês e sua ditadura.
Os revisionistas contemporâneos são covardes. Pensam que as forças contra-revolucionárias são muito poderosas atualmente. Mas isso não tem nada de verdade. Elas são mais débeis. Os povos, com o proletariado à frente, são mais fortes. Esmagarão as forças contra-revolucionárias, as forças da reação, do imperialismo e do social-imperialismo. Esta é uma concepção fundada na análise do mundo sob uma ótica de classe. Qualquer outro ponto de vista é errôneo, mesmo que a atividade e o medo dos revisionistas se mascarem com frases revolucionárias.
Quando nós, marxista-leninistas, dizemos que existem dois mundos e não três ou cinco, estamos no caminho correto e devemos edificar com base no marxismo-leninismo nossa luta contra a burguesia capitalista, contra o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético, contra os demais imperialismos. Esta luta deve conduzir à destruição do velho mundo burguês-capitalista e à instauração do novo sistema socialista.
A força social motriz de nossa época é o proletariado. Lênin acentuou que a força motriz que impulsiona a história é constituída pela classe que encontra-se
"... no centro desta ou daquela época e determina seu conteúdo fundamental, a tendência principal de seu desenvolvimento, as particularidades essenciais de sua situação histórica, etc.".(V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXI, pg. 147).
Já os revisionistas chineses, contrariamente a esta tese de Lênin, procuram considerar o "terceiro mundo" como "a grande força motriz que faz avançar a roda da história". Fazer semelhante declaração significa dar uma definição teórica e praticamente errônea da força motriz. Como é possível, na época atual da evolução social, que tem no centro a classe mais revolucionária - o proletariado - qualificar como força motriz um agrupamento de Estados cuja esmagadora maioria é dominada pela burguesia e os senhores feudais, inclusive por reacionários e fascistas declarados? Trata-se de uma grosseira deformação da teoria de Marx.
A direção chinesa não leva em conta que existem no "terceiro mundo" oprimidos e opressores, que há de um lado o proletariado e o campesinato escravizado, pobre e miserável, e de outro os capitalistas e latifundiários, que exploram e despojam o povo. Não ressaltar essa situação de classe do chamado terceiro mundo, não assinalar os antagonismos existentes significa revisar o marxismo-leninismo e defender o capitalismo. Em geral a burguesia capitalista está no poder nos países do dito terceiro mundo. Essa burguesia espolia o país, explora e oprime o povo pobre no interesse de sua classe, para auferir o máximo de lucros para si e para manter o povo sempre na escravidão e na miséria.
Em muitos países do "terceiro mundo" os governos no poder são burgueses, capitalistas, naturalmente com diferentes nuances políticas, são governos da classe inimiga do proletariado e do campesinato pobre e oprimido, inimiga da revolução e das lutas de libertação. A burguesia que detém o poder em tais países conserva precisamente a sociedade capitalista que o proletariado procura derrubar em aliança com as camadas pobres do campo e da cidade. Constitui a classe alta que, partindo de seus interesses mesquinhos, dispõe-se a qualquer momento, em qualquer viragem, a vender os recursos do solo e do subsolo do país ao capitalismo estrangeiro, a traficar com a liberdade, a independência e a soberania da pátria. Onde quer que esteja no poder, essa classe contraria a luta e as aspirações do proletariado e de seus aliados, das classes e camadas oprimidas.
Muitos dos Estados que a direção chinesa engloba no "terceiro mundo" não são contrários ao imperialismo norte-americano e ao social-imperialismo soviético. Qualificar tais Estados de "principal força motriz da revolução e da luta contra o imperialismo", como preconiza Mao Tsetung, é um erro tão grande como a cordilheira do Himalaia. Existem outros pseudomarxistas, mas estes pelo menos sabem ocultar-se e disfarçar-se atrás de suas teorias burguesas.
Os revisionistas chineses possuem a mesma visão antimarxista não só do "terceiro mundo", mas também do que chamam "segundo mundo", onde domina a grande burguesia capitalista, onde dominam os grandes imperialistas de ontem, que continuam igualmente imperialistas. Nos países desse chamado segundo mundo existe um proletariado grande e poderoso, explorado ate a medula, esmagado por leis opressivas, pelo exército, pela polícia, pelos sindicatos, por todas essas armas da ditadura da burguesia. Tanto nos países do "terceiro mundo" como nos do "segundo mundo", é a classe burguesa capitalista, são as mesmas forças sociais que dominam o proletariado e os povos e que devem ser destruídas. Também ali o proletariado é a principal força motriz.
Mas tanto no "terceiro mundo" como no "segundo mundo" e também nos Estados Unidos da América e na União Soviética, os revisionistas chineses ignoram precisamente o proletariado, que representa o grande exército da revolução, negam exatamente a principal força motriz da sociedade, a força que deve golpear a burguesia monopolista, sua inimiga de classe e inimiga de toda a revolução mundial.
A teoria dos "três mundos" de Mao Tsetung nega essa grande realidade e desconsidera o proletariado da Europa e dos demais países desenvolvidos. É verdade que também existe degenerescência nas fileiras do proletariado, seja no chamado terceiro mundo, seja nos denominados segundo e primeiro, pois a burguesia não cruza os braços, combate seu inimigo não só com armas e repressão mas também política e ideologicamente, com o modo de vida que institui, etc. Mas a degenerescência de alguma camada do proletariado, como a aristocracia operária, não pode fazer com que se renuncie ao marxismo-leninismo e se negue o papel decisivo da classe operária no processo revolucionário mundial. Com uma correta educação marxista-leninista, com atividade revolucionária cotidiana, os verdadeiros comunistas resguardam o proletariado de qualquer país ou "mundo" da degenerescência e mobilizam-no na luta contra seus opressores, sejam eles: ingleses ou franceses, italianos ou alemães, portugueses ou espanhóis, norte-americanos ou japoneses.
Também existe um grande proletariado nos Estados Unidos, que são a cabeça do imperialismo mundial. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo um dos países mais industrializados e o mais rico do mundo, de forma que as migalhas que o capital emprega para enganar o proletariado são um pouco maiores do que em outros países burgueses. O modo de vida exerce ali uma maior influência sobre o proletariado. Mas não podemos ignorar, por pouco que seja, o papel e a contribuição do proletariado norte-americano para a revolução em seu país. A realidade é que também nos Estados Unidos existe uma opinião pública contrária ao imperialismo, contrária às guerras de rapina, contrária à opressão por parte dos capitalistas, dos trustes, dos bancos, etc. Existe inclusive em camadas da pequena burguesia do país uma resistência à opressão do grande capital.
Ao negar a luta de classes, a teoria chinesa dos "três mundos" nega também a luta dos povos para livrar-se do domínio estrangeiro, para conquistar direitos e liberdades democráticos, nega sua luta pelo socialismo. Essa teoria contra-revolucionária e anticientífica risca do mapa a luta dos povos contra seus inimigos, que são o imperialismo, o social-imperialismo, toda a grande burguesia internacional.
Alinhar os povos em três categorias e apregoar que somente o "terceiro mundo" aspira a libertar-se do imperialismo, que somente ele seria "a principal força motriz contra o imperialismo", é uma fraude e um flagrante desvio do marxismo-leninismo. Caso se coloque no "primeiro mundo" e no "segundo mundo" os imperialistas e capitalistas, surge a pergunta: onde colocar os povos destes dois "mundos", que também combatem por sua emancipação contra os mesmos opressores que tiranizam o "terceiro mundo"? Os inventores e partidários da divisão do mundo em três são incapazes de responder a esta indagação porque, segundo sua concepção antimarxista e antileninista, fundiram num só corpo os imperialistas, os governantes e os povos.
Os marxista-leninistas não podem identificar os povos soviéticos com os escroques antimarxistas, social-imperialistas e novos capitalistas que os dominam. Também não podem misturar e confundir o povo norte-americano com o imperialismo norte-americano. Caso atuassem como os revisionistas chineses, os revolucionários cometeriam um grande erro teórico e colocar-se-íam contra a revolução, apoiariam precisamente o imperialismo e social-imperialismo, as forças do capital, combatidas inclusive pelo proletariado e o povo dentro dos covis de seus inimigos.
Qual o sentido do apelo chinês para que o "terceiro mundo" se una em aliança com o "segundo mundo" a fim de combater a metade do "primeiro mundo", quando tal divisão confunde a personalidade, as aspirações e o nível de desenvolvimento distintos dos povos, que combatem a oligarquia que os oprime? O grau da resistência e da luta revolucionária dos povos é igualmente distinto, mas seu objetivo final, o comunismo, o mesmo. Nestas condições nós, marxista-leninistas, devemos fazer propaganda e mobilizarmo-nos para alcançar o objetivo final através de constantes lutas de classe contra o imperialismo, o social-imperialismo, o capitalismo e suas ideologias enganosas.
Os revisionistas chineses não só fundem num único corpo os povos e seus governantes nos países capitalistas, como também querem liquidar a personalidade dos países socialistas, pregando que mesmo eles podem ser incluídos no "terceiro mundo".
Como se pode identificar um país socialista com o "terceiro mundo", onde existem classes antagônicas, opressão e exploração, e alinhá-lo com "reis e príncipes", como fazem os dirigentes da China? Os revisionistas chineses, que chamam seu país de socialista, dizem que se integram no "terceiro mundo" para ajudar os povos desse "mundo". Trata-se de um engodo, com o qual desejam ocultar seu objetivo expansionista. Um país verdadeiramente socialista não precisa dividir o mundo em três nem incluir-se no "terceiro mundo" para ajudar e apoiar a luta dos povos.
Com nossas atitudes, guiando-nos por critérios de classe, nós, marxista-leninistas, ajudamos os povos, o proletariado, a democracia, a soberania e a liberdade verdadeiras e não os Estados dominados por monarcas, xás e camarilhas reacionárias. Ajudamos os povos e os Estados democráticos que desejam libertar-se do jugo das superpotências, mas acentuamos que não se pode fazê-lo devidamente, pela via justa e segundo critérios de classe, sem combater também os monarcas, também os monopólios internacionais, que estão interligados com as superpotências. Os dirigentes chineses pretendem haver solucionado este complexo problema de classe ao "fundir-se" nesse imaginário "terceiro mundo". Mas trata-se de uma solução antimarxista. Na maioria das vezes, os Estados e governos do "terceiro mundo", contrariamente ao que pretendem os dirigentes chineses, não são partidários da luta contra o "primeiro mundo", o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético, nem do combate ao "segundo mundo".
A corrente dos povos do mundo marcha rumo à luta pela libertação, pela revolução, pelo socialismo, mas não inclui os governos dos monarcas, dos emires e camarilhas reacionárias do tipo das de Mobutu e Pinochet, do "terceiro mundo" onde a China se inclui.
A direção chinesa não faz uma distinção de classe quanto aos Estados do chamado terceiro mundo, segundo os princípios do internacionalismo proletário e os interesses da revolução mundial. Não leva em conta que tais Estados nacionais, na sua maioria dirigidos por camadas da alta burguesia, são influenciados e fortemente amarrados com mil fios não só pelo imperialismo norte-americano mas também pelo social-imperialismo soviético.
Existem nesses Estados profundas contradições internas que opõem o proletariado e o campesinato pobre e oprimido à burguesia e a todos os escravizadores. A ajuda de um país socialista aos povos desses Estados deve ser um grande estímulo ao seu avanço, à criação de um Estado verdadeiramente democrático, sem obscurecer a perspectiva, a causa da vitória da revolução proletária e da tomada do poder pelo proletariado. A revolução não se importa, será obra do proletariado e do povo de cada país. Naturalmente, a tomada do poder não se processará hoje ou amanhã, mas, como nos ensina Lênin, devemos criar as condições para que, em cada viragem da história, o proletariado encontre-se à frente da luta para derrubar o poder degenerado dos ditadores e da burguesia reacionária, para instaurar o domínio do povo.
A divisão que nós, comunistas, fazemos do mundo atual com base no critério de classe leninista, não nos impede de combater as superpotências e apoiar todos os povos e Estados que exigem a emancipação e têm contradições com elas. A Albânia socialista tem apoiado de todo coração e vigorosamente a luta dos povos da Ásia, África e América Latina, pois ela corresponde aos interesses deles próprios e volta-se contra o imperialismo e domínio colonial estrangeiro. Mas ocultar os princípios e distorcer o Marxismo-leninismo, a ideologia e a política do partido do proletariado, como fazem os dirigentes chineses, é antimarxista, é um blefe, uma fraude. O Partido do Trabalho da Albânia nunca fez nem fará tal coisa, pois seria um crime imperdoável para com seu povo, para com os demais povos, para com o proletariado internacional e a revolução mundial.
Ao dividir mundo em três, o Partido Comunista da China prega de fato a conciliação de classe.
Os autênticos marxista-leninistas nunca esquecem os ensinamentos de Lênin, indicando que os oportunistas e revisionistas procuram a todo custo amainar a luta de classes, enganar a classe operária e os oprimidos com formulas "revolucionárias", esvaziando a doutrina marxista-leninista de seu conteúdo revolucionário. É o que faz a direção revisionista chinesa ao pregar a conciliação e a coexistência pacífica da classe operária com a burguesia.
Como nos ensinam Engels e Lênin, as contradições entre as classes ou forças sociais com interesses fundamentais opostos, longe de se conciliarem acirram-se continuamente e desembocam em conflitos político-sociais. A própria existência do Estado prova que os antagonismos de classe são inconciliáveis. Portanto, tentar atenuar esses antagonismos de classe, que se verificam nos diferentes países burgueses e revisionistas do "terceiro", do "segundo" ou do "primeiro mundo", pregando uma união sem princípios, significa negar o caráter objetivo da existência das contradições, tratar esse problema de maneira antimarxista.
Os "teóricos" chineses procuram conciliar classes que jamais poderão ser conciliadas, ou seja, adotam posições revisionistas, oportunistas. A deformação da teoria de Marx pelos revisionistas chineses se evidencia quando eles consideram os países que incluem no "terceiro mundo" como áreas onde reina a paz social e seu Estado como organismo de conciliação de classe.
Aceitar a noção de "terceiro mundo", tal como a proclamam os dirigentes chineses, significa trabalhar para criar uma opinião pública a serviço da defesa dos organismos estatais necessários à burguesia para oprimir a classe operária e as massas do povo. Como dizia Lênin ao atacar os revisionistas, a tese do amainamento da luta de classes legitima e afirma a opressão. Buscar a unidade dentro do "terceiro mundo" quer dizer na prática buscar a unidade da classe oprimida com a opressora, ou seja, tentar "suavizar" os antagonismos entre as massas trabalhadoras e a burguesia, entre o povo e os opressores estrangeiros. Essa prédica dos revisionistas chineses contraria os interesses da libertação nacional e social dos povos, suas aspirações à liberdade, independência e justiça social.
A maioria dos Estados tidos como componentes do "terceiro mundo" ou "mundo não-alinhado" depende do capital financeiro forâneo, que é tão forte, tão vasto, que tem um peso decisivo em toda a sua vida. Tais Estados não gozam de plena independência, ao contrário, são dependentes do grande capital financeiro, que faz uma política e difunde uma ideologia de justificação da exploração dos povos.
A burguesia e o imperialismo fazem grandes esforços para encobrir essa realidade e, quando se vêem desmascarados, criam diferentes "teorias" contrárias à independência e soberania dos Estados. Para abafar as aspirações dos povos à liberdade, independência e soberania, os teóricos burgueses e revisionistas qualificam tais anseios de "anacrônicos", atribuem-lhes diferentes interpretações metafísicas e contrapõem a eles o lema da "interdependência mundial", pretendendo que ele expressa a tendência do atual desenvolvimento da sociedade humana, ou o slogan da "soberania limitada", que supostamente expressa os interesses supremos da chamada comunidade socialista, etc.
A realidade burguês-revisionista, de violação da liberdade, independência e soberania de nações e Estados sob todas as formas e em todos os sentidos, mostra a decomposição do sistema capitalista. Vivemos uma época em que a burguesia enquanto classe dominante está perdendo terreno, enquanto que o proletariado mundial tornou-se uma força colossal e encetou um combate ininterrupto, implacável para livrar-se da classe que o explora. Sob os golpes dos povos e da luta de classe do proletariado, a burguesia foi obrigada a renunciar de jure ao colonialismo e a reconhecer formalmente e a liberdade, a independência e a soberania de muitos países que haviam sido ocupados e espoliados até a medula por um longo período.
Mas a liberdade, independência e soberania juridicamente reconhecidas pelos Estados capitalistas às suas ex-colônias até hoje permanecem formais em muitos países que voltaram a ser dominados pelos capitalistas e imperialistas sob novas formas. A fim de prolongar seu domínio nas ex-colônias, essas forças retrógradas de nossa época praticam em ampla escala os complôs e intrigas, para dividir e dominar nesses países onde ainda encontram terreno, explorando o atraso econômico, político e ideológico dos povos e a falta de organização das forças revolucionárias.
No tratamento desse problema não se deve julgar que, já que as ex-colônias ainda não conquistaram a plena independência e soberania, sua luta foi inútil. De forma alguma. O combate dos povos pela emancipação de seus pequenos países do ditame e da tutela dos grandes, do imperialismo e do social-imperialismo, não deve ser subestimado. Ao contrário, o Partido do Trabalho da Albânia e o Estado albanês sempre apoiaram e apoiarão sem reservas essa justa luta revolucionária e libertadora, considerando-a como uma vitória dos povos no fortalecimento da independência política, no rompimento com o domínio colonial e neocolonial. Mas contestamos os teóricos revisionistas que afirmam que agora toda luta revolucionária deveria ser reduzida ao combate pela independência nacional, para conquistá-la e defendê-la da agressão das potências imperialistas, negando a luta pela libertação social. Somente a vitória desta última garante a liberdade, a independência e a soberania plenas e verdadeiras de uma nação. Esses advogados do sistema espoliador "esquecem" que a luta de classes entre o proletariado e seus aliados, de um lado, e a burguesia de cada país e seus aliados externos, de outro, prossegue sempre acirrada e conduzirá um dia ao momento, às situações revolucionárias, como dizia Lênin, em que a revolução estala. Deve-se aproveitar as condições cada vez mais favoráveis que estão se criando no mundo para o amplo desenvolvimento das revoluções antiimperialistas e democráticas e para sua direção pelo proletariado, de forma a passar da luta pela independência nacional a outra fase mais avançada, à luta pelo socialismo, Lênin nos ensina que a revolução deve ser levada até o fim, liquidando a burguesia e seu poder. Unicamente sobre essa base pode-se falar em liberdade, independência e soberania verdadeiras.
Segundo nossa concepção marxista-leninista, o povo não pode ter liberdade e soberania numa sociedade dividida em classes antagônicas onde domina a classe feudal ou burguesa. A liberdade, a independência e a soberania têm um conteúdo político-social concreto. Garante-se a autêntica liberdade e soberania nas condições da ditadura do proletariado. Onde o Estado encontra-se nas mãos da classe exploradora, as relações econômicas e políticas desiguais entre exploradores e explorados e entre países conduzem à perda ou à restrição da liberdade e da soberania do povo. Consequentemente, não se pode falar em verdadeira liberdade e soberania nacional, nem muito menos em soberania do povo nos países enquadrados no "mundo não-alinhado" ou no "terceiro mundo". Só se pode definir corretamente qual o povo que é livre de verdade e qual vive avassalado, qual Estado é independente e soberano e qual dependente e oprimido, com base numa análise científica apoiada na teoria marxista-leninista. A teoria marxista-leninista explica claramente quem são os opressores e exploradores dos povos e qual o caminho para os povos se tornarem livres, independentes e soberanos. Nós, comunistas albaneses, só compreendemos a liberdade, a independência e soberania dos países e povos desta forma, à luz do marxismo-leninismo.
A noção da existência de três mundos ou da divisão do mundo em três baseia-se numa concepção racista e metafísica, que é engendro do capitalismo mundial e da reação.
Mas a tese racista que classifica os países em três categorias ou "mundos" não se baseia simplesmente na cor da pele. Faz sua classificação tendo como fundamento o nível de desenvolvimento econômico dos países e visa definir a "raça dos grandes senhores" de um lado e a "raça dos párias e da plebe" de outro, criar uma divisão imutável e metafísica, conforme o interesse da burguesia capitalista. Considera as diferentes nações e povos do mundo como um rebanho de carneiros, como um todo amorfo.
Os revisionistas chineses aceitam e recomendam que se preserve a "raça dos senhores" e que a "raça dos párias e da plebe" sirva-a comportada e devotadamente.
A dialética marxista-leninista nos ensina que o desenvolvimento não conhece fronteiras, que nada cessa de modificar-se. Neste processo ininterrupto de desenvolvimento rumo ao futuro verificam-se mudanças de quantidade e de qualidade. Nossa época, como qualquer outra, caracteriza-se por profundas contradições, que Marx, Engels, Lênin e Stálin definiram tão claramente. É a época do imperialismo e das revoluções proletárias e, portanto, a época das grandes transformações quantitativas e qualitativas que conduzem à revolução e à tomada do poder pela classe operária, para construir a nova sociedade socialista.
Toda a teoria de Marx baseia-se na luta de classes e no materialismo dialético e histórico. Marx demonstrou que a sociedade capitalista é uma sociedade de classes exploradoras e exploradas, que as classes só desaparecerão quando se chegar à sociedade sem classes, ao comunismo.
Vivemos atualmente a fase da derrocada do imperialismo e da vitória das revoluções proletárias. Isto significa que existem na sociedade capitalista atual duas classes principais, o proletariado e a burguesia, em luta inconciliável, de vida ou morte entre si. Qual delas vencerá? Marx e Lênin, a ciência marxista-leninista, a teoria e a prática da revolução nos demonstram e nos convencem de que, em última instância, triunfará o proletariado, que destruirá, derrubará o poder da burguesia, o imperialismo, todos os exploradores e edificará uma sociedade nova, a sociedade socialista. Ensinam-nos igualmente que, mesmo nesta nova sociedade, durante um período muito prolongado existirão classes: a classe operária e o campesinato trabalhador, que se encontram em estreita aliança; mas subsistirão também resíduos das classes derrubadas e expropriadas. Durante todo este período, tais resíduos, bem como os elementos que degeneram e se contrapõem à construção socialista, procurarão retomar o poder perdido. Portanto, também, existirá uma acirrada luta de classes no socialismo.
Os marxista-leninistas têm sempre em mente que as classes pobres, com o proletariado à frente, e as classes ricas, tendo à frente a burguesia, existem em todos os países, exceto naqueles onde a revolução triunfou e instaurou-se o sistema socialista.
Em qualquer Estado capitalista, esteja onde estiver, mesmo que seja democrático ou progressista, existem oprimidos e opressores, explorados e exploradores, antagonismos, implacável luta de classes. A diferenciação na intensidade da luta não modifica essa realidade. Essa luta atravessa ziguezagues, mas existe e não pode ser extinta. Ela existe em toda parte, existe nos Estados Unidos, entre o proletariado e a burguesia imperialista, existe igualmente na União Soviética, onde o marxismo-leninismo foi traído e criou-se uma nova classe burguês-capitalista que oprime os trabalhadores do país. Também existem classes e luta de classes no "segundo mundo", como na França, na Inglaterra, na Itália, na Alemanha Ocidental, no Japão. Existe da mesma forma no "terceiro mundo", na Índia, no Zaire, no Burundi, no Paquistão, nas Filipinas, etc.
Somente a teoria dos "três mundos" de Mao Tsetung pretende que não existem classes e luta de classes em país algum. Ela não as enxerga porque julga os países e povos segundo conceitos geopolíticos burgueses e de acordo com o nível de seu desenvolvimento econômico.
Ver o mundo dividido em três, em "primeiro mundo", "segundo mundo" e "terceiro mundo", à margem do prisma de classe, como fazem os revisionistas chineses, significa desviar-se da teoria marxista-leninista da luta de classes, significa negar a luta do proletariado contra a burguesia para passar de uma sociedade atrasada a uma nova sociedade, socialista, e mais tarde à sociedade sem classes, comunista. Dividir o mundo em três significa desconhecer as características da época atual, emperrar o avanço do proletariado e dos povos rumo à revolução e à libertação nacional, obstaculizar sua luta contra o imperialismo norte-americano, contra o social-imperialismo soviético, contra o capital e a reação, em cada país e em toda parte. A teoria dos "três mundos" prega a paz social, a conciliação de classe, procura estabelecer alianças entre inimigos inconciliáveis, entre o proletariado e a burguesia, entre os oprimidos e os opressores, entre os povos e o imperialismo. Procura prolongar a existência do velho mundo, do mundo capitalista, mantê-lo vivo precisamente buscando a extinção da luta de classes.
Mas a luta de classes, a luta do proletariado e seus aliados para tomar o poder e a luta da burguesia para mantê-lo não podem jamais ser negadas. Pode-se mover céus e terras, mas não esta verdade; ela não pode tampouco ser mudada pelas teorizações vazias sobre "mundos": "primeiro mundo", "segundo mundo", "terceiro mundo", "mundo não-alinhado" ou "vigésimo mundo". Aceitar tal divisão é deixar de lado, abandonar a teoria de Marx, Engels, Lênin e Stálin sobre as classes e a luta de classes.
Lênin e Stálin disseram após a vitória da Revolução de Outubro que existem dois mundos em nossos dias, o mundo socialista e o mundo capitalista, embora na época o socialismo tivesse sido instaurado apenas num país.
"... atualmente - dizia Lênin em 1921 - há dois mundos: o velho, o capitalismo, que se enredou, que nunca retrocederá, e o novo mundo em ascenso, que é ainda muito débil mas que crescerá, pois é invencível". (V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXXIII, pgs. 153-154).
Este critério de classe na divisão do mundo vale igualmente para a atualidade, em que pese o socialismo não ter triunfado em muitos países e a nova sociedade não ter substituído a velha sociedade burguês-capitalista. Amanhã isso sem dúvida ocorrerá.
O fato do socialismo ter sido traído na União Soviética e outros países antes socialistas não modifica uma vírgula sequer no critério leninista sobre a divisão do mundo. Hoje, como antes, existem apenas dois mundos e a luta entre eles, entre as duas classes antagônicas, entre o socialismo e o capitalismo verifica-se não só em escala nacional, mas também internacional.
Os revisionistas chineses, que não aceitam a existência do mundo socialista a pretexto de que não existe mais o campo socialista, devido à traição da União Soviética e de outros antigos países socialistas, ignoram premeditadamente uma coisa: que o aparecimento do revisionismo contemporâneo não modifica em absoluto a tendência geral da história no sentido da revolução, da derrocada do imperialismo, independente do capitalismo ainda existir. Eles ignoram ao mesmo tempo que as idéias imortais do marxismo-leninismo existem, desenvolvem-se e triunfam, que existem os partidos marxista-leninistas, existe a Albânia socialista, existem os povos que combatem por sua liberdade, independência e soberania nacional, que o proletariado mundial existe e luta.
A Comuna de Paris não triunfou, foi esmagada, mas deu um grande exemplo ao proletariado mundial. Marx disse que a experiência da Comuna demonstrou a debilidade momentânea do proletariado francês, mas preparou o proletariado de todos os países para a revolução mundial e deu uma grande lição quanto às condições necessárias para se alcançar a vitória. Marx erigiu em teoria a grande experiência dos comunards, que "tomaram o céu de assalto" e ensinou ao proletariado que ele deve romper pela violência revolucionária o aparelho de Estado burguês e sua ditadura.
Os revisionistas contemporâneos são covardes. Pensam que as forças contra-revolucionárias são muito poderosas atualmente. Mas isso não tem nada de verdade. Elas são mais débeis. Os povos, com o proletariado à frente, são mais fortes. Esmagarão as forças contra-revolucionárias, as forças da reação, do imperialismo e do social-imperialismo. Esta é uma concepção fundada na análise do mundo sob uma ótica de classe. Qualquer outro ponto de vista é errôneo, mesmo que a atividade e o medo dos revisionistas se mascarem com frases revolucionárias.
Quando nós, marxista-leninistas, dizemos que existem dois mundos e não três ou cinco, estamos no caminho correto e devemos edificar com base no marxismo-leninismo nossa luta contra a burguesia capitalista, contra o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético, contra os demais imperialismos. Esta luta deve conduzir à destruição do velho mundo burguês-capitalista e à instauração do novo sistema socialista.
A força social motriz de nossa época é o proletariado. Lênin acentuou que a força motriz que impulsiona a história é constituída pela classe que encontra-se
"... no centro desta ou daquela época e determina seu conteúdo fundamental, a tendência principal de seu desenvolvimento, as particularidades essenciais de sua situação histórica, etc.".(V. I. Lênin, Obras, ed. albanesa, vol. XXI, pg. 147).
Já os revisionistas chineses, contrariamente a esta tese de Lênin, procuram considerar o "terceiro mundo" como "a grande força motriz que faz avançar a roda da história". Fazer semelhante declaração significa dar uma definição teórica e praticamente errônea da força motriz. Como é possível, na época atual da evolução social, que tem no centro a classe mais revolucionária - o proletariado - qualificar como força motriz um agrupamento de Estados cuja esmagadora maioria é dominada pela burguesia e os senhores feudais, inclusive por reacionários e fascistas declarados? Trata-se de uma grosseira deformação da teoria de Marx.
A direção chinesa não leva em conta que existem no "terceiro mundo" oprimidos e opressores, que há de um lado o proletariado e o campesinato escravizado, pobre e miserável, e de outro os capitalistas e latifundiários, que exploram e despojam o povo. Não ressaltar essa situação de classe do chamado terceiro mundo, não assinalar os antagonismos existentes significa revisar o marxismo-leninismo e defender o capitalismo. Em geral a burguesia capitalista está no poder nos países do dito terceiro mundo. Essa burguesia espolia o país, explora e oprime o povo pobre no interesse de sua classe, para auferir o máximo de lucros para si e para manter o povo sempre na escravidão e na miséria.
Em muitos países do "terceiro mundo" os governos no poder são burgueses, capitalistas, naturalmente com diferentes nuances políticas, são governos da classe inimiga do proletariado e do campesinato pobre e oprimido, inimiga da revolução e das lutas de libertação. A burguesia que detém o poder em tais países conserva precisamente a sociedade capitalista que o proletariado procura derrubar em aliança com as camadas pobres do campo e da cidade. Constitui a classe alta que, partindo de seus interesses mesquinhos, dispõe-se a qualquer momento, em qualquer viragem, a vender os recursos do solo e do subsolo do país ao capitalismo estrangeiro, a traficar com a liberdade, a independência e a soberania da pátria. Onde quer que esteja no poder, essa classe contraria a luta e as aspirações do proletariado e de seus aliados, das classes e camadas oprimidas.
Muitos dos Estados que a direção chinesa engloba no "terceiro mundo" não são contrários ao imperialismo norte-americano e ao social-imperialismo soviético. Qualificar tais Estados de "principal força motriz da revolução e da luta contra o imperialismo", como preconiza Mao Tsetung, é um erro tão grande como a cordilheira do Himalaia. Existem outros pseudomarxistas, mas estes pelo menos sabem ocultar-se e disfarçar-se atrás de suas teorias burguesas.
Os revisionistas chineses possuem a mesma visão antimarxista não só do "terceiro mundo", mas também do que chamam "segundo mundo", onde domina a grande burguesia capitalista, onde dominam os grandes imperialistas de ontem, que continuam igualmente imperialistas. Nos países desse chamado segundo mundo existe um proletariado grande e poderoso, explorado ate a medula, esmagado por leis opressivas, pelo exército, pela polícia, pelos sindicatos, por todas essas armas da ditadura da burguesia. Tanto nos países do "terceiro mundo" como nos do "segundo mundo", é a classe burguesa capitalista, são as mesmas forças sociais que dominam o proletariado e os povos e que devem ser destruídas. Também ali o proletariado é a principal força motriz.
Mas tanto no "terceiro mundo" como no "segundo mundo" e também nos Estados Unidos da América e na União Soviética, os revisionistas chineses ignoram precisamente o proletariado, que representa o grande exército da revolução, negam exatamente a principal força motriz da sociedade, a força que deve golpear a burguesia monopolista, sua inimiga de classe e inimiga de toda a revolução mundial.
A teoria dos "três mundos" de Mao Tsetung nega essa grande realidade e desconsidera o proletariado da Europa e dos demais países desenvolvidos. É verdade que também existe degenerescência nas fileiras do proletariado, seja no chamado terceiro mundo, seja nos denominados segundo e primeiro, pois a burguesia não cruza os braços, combate seu inimigo não só com armas e repressão mas também política e ideologicamente, com o modo de vida que institui, etc. Mas a degenerescência de alguma camada do proletariado, como a aristocracia operária, não pode fazer com que se renuncie ao marxismo-leninismo e se negue o papel decisivo da classe operária no processo revolucionário mundial. Com uma correta educação marxista-leninista, com atividade revolucionária cotidiana, os verdadeiros comunistas resguardam o proletariado de qualquer país ou "mundo" da degenerescência e mobilizam-no na luta contra seus opressores, sejam eles: ingleses ou franceses, italianos ou alemães, portugueses ou espanhóis, norte-americanos ou japoneses.
Também existe um grande proletariado nos Estados Unidos, que são a cabeça do imperialismo mundial. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo um dos países mais industrializados e o mais rico do mundo, de forma que as migalhas que o capital emprega para enganar o proletariado são um pouco maiores do que em outros países burgueses. O modo de vida exerce ali uma maior influência sobre o proletariado. Mas não podemos ignorar, por pouco que seja, o papel e a contribuição do proletariado norte-americano para a revolução em seu país. A realidade é que também nos Estados Unidos existe uma opinião pública contrária ao imperialismo, contrária às guerras de rapina, contrária à opressão por parte dos capitalistas, dos trustes, dos bancos, etc. Existe inclusive em camadas da pequena burguesia do país uma resistência à opressão do grande capital.
Ao negar a luta de classes, a teoria chinesa dos "três mundos" nega também a luta dos povos para livrar-se do domínio estrangeiro, para conquistar direitos e liberdades democráticos, nega sua luta pelo socialismo. Essa teoria contra-revolucionária e anticientífica risca do mapa a luta dos povos contra seus inimigos, que são o imperialismo, o social-imperialismo, toda a grande burguesia internacional.
Alinhar os povos em três categorias e apregoar que somente o "terceiro mundo" aspira a libertar-se do imperialismo, que somente ele seria "a principal força motriz contra o imperialismo", é uma fraude e um flagrante desvio do marxismo-leninismo. Caso se coloque no "primeiro mundo" e no "segundo mundo" os imperialistas e capitalistas, surge a pergunta: onde colocar os povos destes dois "mundos", que também combatem por sua emancipação contra os mesmos opressores que tiranizam o "terceiro mundo"? Os inventores e partidários da divisão do mundo em três são incapazes de responder a esta indagação porque, segundo sua concepção antimarxista e antileninista, fundiram num só corpo os imperialistas, os governantes e os povos.
Os marxista-leninistas não podem identificar os povos soviéticos com os escroques antimarxistas, social-imperialistas e novos capitalistas que os dominam. Também não podem misturar e confundir o povo norte-americano com o imperialismo norte-americano. Caso atuassem como os revisionistas chineses, os revolucionários cometeriam um grande erro teórico e colocar-se-íam contra a revolução, apoiariam precisamente o imperialismo e social-imperialismo, as forças do capital, combatidas inclusive pelo proletariado e o povo dentro dos covis de seus inimigos.
Qual o sentido do apelo chinês para que o "terceiro mundo" se una em aliança com o "segundo mundo" a fim de combater a metade do "primeiro mundo", quando tal divisão confunde a personalidade, as aspirações e o nível de desenvolvimento distintos dos povos, que combatem a oligarquia que os oprime? O grau da resistência e da luta revolucionária dos povos é igualmente distinto, mas seu objetivo final, o comunismo, o mesmo. Nestas condições nós, marxista-leninistas, devemos fazer propaganda e mobilizarmo-nos para alcançar o objetivo final através de constantes lutas de classe contra o imperialismo, o social-imperialismo, o capitalismo e suas ideologias enganosas.
Os revisionistas chineses não só fundem num único corpo os povos e seus governantes nos países capitalistas, como também querem liquidar a personalidade dos países socialistas, pregando que mesmo eles podem ser incluídos no "terceiro mundo".
Como se pode identificar um país socialista com o "terceiro mundo", onde existem classes antagônicas, opressão e exploração, e alinhá-lo com "reis e príncipes", como fazem os dirigentes da China? Os revisionistas chineses, que chamam seu país de socialista, dizem que se integram no "terceiro mundo" para ajudar os povos desse "mundo". Trata-se de um engodo, com o qual desejam ocultar seu objetivo expansionista. Um país verdadeiramente socialista não precisa dividir o mundo em três nem incluir-se no "terceiro mundo" para ajudar e apoiar a luta dos povos.
Com nossas atitudes, guiando-nos por critérios de classe, nós, marxista-leninistas, ajudamos os povos, o proletariado, a democracia, a soberania e a liberdade verdadeiras e não os Estados dominados por monarcas, xás e camarilhas reacionárias. Ajudamos os povos e os Estados democráticos que desejam libertar-se do jugo das superpotências, mas acentuamos que não se pode fazê-lo devidamente, pela via justa e segundo critérios de classe, sem combater também os monarcas, também os monopólios internacionais, que estão interligados com as superpotências. Os dirigentes chineses pretendem haver solucionado este complexo problema de classe ao "fundir-se" nesse imaginário "terceiro mundo". Mas trata-se de uma solução antimarxista. Na maioria das vezes, os Estados e governos do "terceiro mundo", contrariamente ao que pretendem os dirigentes chineses, não são partidários da luta contra o "primeiro mundo", o imperialismo norte-americano e o social-imperialismo soviético, nem do combate ao "segundo mundo".
A corrente dos povos do mundo marcha rumo à luta pela libertação, pela revolução, pelo socialismo, mas não inclui os governos dos monarcas, dos emires e camarilhas reacionárias do tipo das de Mobutu e Pinochet, do "terceiro mundo" onde a China se inclui.
A direção chinesa não faz uma distinção de classe quanto aos Estados do chamado terceiro mundo, segundo os princípios do internacionalismo proletário e os interesses da revolução mundial. Não leva em conta que tais Estados nacionais, na sua maioria dirigidos por camadas da alta burguesia, são influenciados e fortemente amarrados com mil fios não só pelo imperialismo norte-americano mas também pelo social-imperialismo soviético.
Existem nesses Estados profundas contradições internas que opõem o proletariado e o campesinato pobre e oprimido à burguesia e a todos os escravizadores. A ajuda de um país socialista aos povos desses Estados deve ser um grande estímulo ao seu avanço, à criação de um Estado verdadeiramente democrático, sem obscurecer a perspectiva, a causa da vitória da revolução proletária e da tomada do poder pelo proletariado. A revolução não se importa, será obra do proletariado e do povo de cada país. Naturalmente, a tomada do poder não se processará hoje ou amanhã, mas, como nos ensina Lênin, devemos criar as condições para que, em cada viragem da história, o proletariado encontre-se à frente da luta para derrubar o poder degenerado dos ditadores e da burguesia reacionária, para instaurar o domínio do povo.
A divisão que nós, comunistas, fazemos do mundo atual com base no critério de classe leninista, não nos impede de combater as superpotências e apoiar todos os povos e Estados que exigem a emancipação e têm contradições com elas. A Albânia socialista tem apoiado de todo coração e vigorosamente a luta dos povos da Ásia, África e América Latina, pois ela corresponde aos interesses deles próprios e volta-se contra o imperialismo e domínio colonial estrangeiro. Mas ocultar os princípios e distorcer o Marxismo-leninismo, a ideologia e a política do partido do proletariado, como fazem os dirigentes chineses, é antimarxista, é um blefe, uma fraude. O Partido do Trabalho da Albânia nunca fez nem fará tal coisa, pois seria um crime imperdoável para com seu povo, para com os demais povos, para com o proletariado internacional e a revolução mundial.
Ao dividir mundo em três, o Partido Comunista da China prega de fato a conciliação de classe.
Os autênticos marxista-leninistas nunca esquecem os ensinamentos de Lênin, indicando que os oportunistas e revisionistas procuram a todo custo amainar a luta de classes, enganar a classe operária e os oprimidos com formulas "revolucionárias", esvaziando a doutrina marxista-leninista de seu conteúdo revolucionário. É o que faz a direção revisionista chinesa ao pregar a conciliação e a coexistência pacífica da classe operária com a burguesia.
Como nos ensinam Engels e Lênin, as contradições entre as classes ou forças sociais com interesses fundamentais opostos, longe de se conciliarem acirram-se continuamente e desembocam em conflitos político-sociais. A própria existência do Estado prova que os antagonismos de classe são inconciliáveis. Portanto, tentar atenuar esses antagonismos de classe, que se verificam nos diferentes países burgueses e revisionistas do "terceiro", do "segundo" ou do "primeiro mundo", pregando uma união sem princípios, significa negar o caráter objetivo da existência das contradições, tratar esse problema de maneira antimarxista.
Os "teóricos" chineses procuram conciliar classes que jamais poderão ser conciliadas, ou seja, adotam posições revisionistas, oportunistas. A deformação da teoria de Marx pelos revisionistas chineses se evidencia quando eles consideram os países que incluem no "terceiro mundo" como áreas onde reina a paz social e seu Estado como organismo de conciliação de classe.
Aceitar a noção de "terceiro mundo", tal como a proclamam os dirigentes chineses, significa trabalhar para criar uma opinião pública a serviço da defesa dos organismos estatais necessários à burguesia para oprimir a classe operária e as massas do povo. Como dizia Lênin ao atacar os revisionistas, a tese do amainamento da luta de classes legitima e afirma a opressão. Buscar a unidade dentro do "terceiro mundo" quer dizer na prática buscar a unidade da classe oprimida com a opressora, ou seja, tentar "suavizar" os antagonismos entre as massas trabalhadoras e a burguesia, entre o povo e os opressores estrangeiros. Essa prédica dos revisionistas chineses contraria os interesses da libertação nacional e social dos povos, suas aspirações à liberdade, independência e justiça social.
A maioria dos Estados tidos como componentes do "terceiro mundo" ou "mundo não-alinhado" depende do capital financeiro forâneo, que é tão forte, tão vasto, que tem um peso decisivo em toda a sua vida. Tais Estados não gozam de plena independência, ao contrário, são dependentes do grande capital financeiro, que faz uma política e difunde uma ideologia de justificação da exploração dos povos.
A burguesia e o imperialismo fazem grandes esforços para encobrir essa realidade e, quando se vêem desmascarados, criam diferentes "teorias" contrárias à independência e soberania dos Estados. Para abafar as aspirações dos povos à liberdade, independência e soberania, os teóricos burgueses e revisionistas qualificam tais anseios de "anacrônicos", atribuem-lhes diferentes interpretações metafísicas e contrapõem a eles o lema da "interdependência mundial", pretendendo que ele expressa a tendência do atual desenvolvimento da sociedade humana, ou o slogan da "soberania limitada", que supostamente expressa os interesses supremos da chamada comunidade socialista, etc.
A realidade burguês-revisionista, de violação da liberdade, independência e soberania de nações e Estados sob todas as formas e em todos os sentidos, mostra a decomposição do sistema capitalista. Vivemos uma época em que a burguesia enquanto classe dominante está perdendo terreno, enquanto que o proletariado mundial tornou-se uma força colossal e encetou um combate ininterrupto, implacável para livrar-se da classe que o explora. Sob os golpes dos povos e da luta de classe do proletariado, a burguesia foi obrigada a renunciar de jure ao colonialismo e a reconhecer formalmente e a liberdade, a independência e a soberania de muitos países que haviam sido ocupados e espoliados até a medula por um longo período.
Mas a liberdade, independência e soberania juridicamente reconhecidas pelos Estados capitalistas às suas ex-colônias até hoje permanecem formais em muitos países que voltaram a ser dominados pelos capitalistas e imperialistas sob novas formas. A fim de prolongar seu domínio nas ex-colônias, essas forças retrógradas de nossa época praticam em ampla escala os complôs e intrigas, para dividir e dominar nesses países onde ainda encontram terreno, explorando o atraso econômico, político e ideológico dos povos e a falta de organização das forças revolucionárias.
No tratamento desse problema não se deve julgar que, já que as ex-colônias ainda não conquistaram a plena independência e soberania, sua luta foi inútil. De forma alguma. O combate dos povos pela emancipação de seus pequenos países do ditame e da tutela dos grandes, do imperialismo e do social-imperialismo, não deve ser subestimado. Ao contrário, o Partido do Trabalho da Albânia e o Estado albanês sempre apoiaram e apoiarão sem reservas essa justa luta revolucionária e libertadora, considerando-a como uma vitória dos povos no fortalecimento da independência política, no rompimento com o domínio colonial e neocolonial. Mas contestamos os teóricos revisionistas que afirmam que agora toda luta revolucionária deveria ser reduzida ao combate pela independência nacional, para conquistá-la e defendê-la da agressão das potências imperialistas, negando a luta pela libertação social. Somente a vitória desta última garante a liberdade, a independência e a soberania plenas e verdadeiras de uma nação. Esses advogados do sistema espoliador "esquecem" que a luta de classes entre o proletariado e seus aliados, de um lado, e a burguesia de cada país e seus aliados externos, de outro, prossegue sempre acirrada e conduzirá um dia ao momento, às situações revolucionárias, como dizia Lênin, em que a revolução estala. Deve-se aproveitar as condições cada vez mais favoráveis que estão se criando no mundo para o amplo desenvolvimento das revoluções antiimperialistas e democráticas e para sua direção pelo proletariado, de forma a passar da luta pela independência nacional a outra fase mais avançada, à luta pelo socialismo, Lênin nos ensina que a revolução deve ser levada até o fim, liquidando a burguesia e seu poder. Unicamente sobre essa base pode-se falar em liberdade, independência e soberania verdadeiras.
Segundo nossa concepção marxista-leninista, o povo não pode ter liberdade e soberania numa sociedade dividida em classes antagônicas onde domina a classe feudal ou burguesa. A liberdade, a independência e a soberania têm um conteúdo político-social concreto. Garante-se a autêntica liberdade e soberania nas condições da ditadura do proletariado. Onde o Estado encontra-se nas mãos da classe exploradora, as relações econômicas e políticas desiguais entre exploradores e explorados e entre países conduzem à perda ou à restrição da liberdade e da soberania do povo. Consequentemente, não se pode falar em verdadeira liberdade e soberania nacional, nem muito menos em soberania do povo nos países enquadrados no "mundo não-alinhado" ou no "terceiro mundo". Só se pode definir corretamente qual o povo que é livre de verdade e qual vive avassalado, qual Estado é independente e soberano e qual dependente e oprimido, com base numa análise científica apoiada na teoria marxista-leninista. A teoria marxista-leninista explica claramente quem são os opressores e exploradores dos povos e qual o caminho para os povos se tornarem livres, independentes e soberanos. Nós, comunistas albaneses, só compreendemos a liberdade, a independência e soberania dos países e povos desta forma, à luz do marxismo-leninismo.
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